Divisão das terras indígenas

Índios xikrins expulsam grileiros de área no Pará

Dezenas de guerreiros indígenas formaram expedição que recuperou terra no sul do Pará

27/08/2019 por Fabiano Maisonnave e Lalo de Almeida

Cansados de esperar após denunciarem a invasão de suas terras no Pará, os xikrins expulsaram por conta própria grileiros que vinham desmatando a área para plantar pasto. Eles voltaram da expedição no sábado, carregados de material confiscado, como espingardas e motosserras, relatam Fabiano Maisonnave e Lalo de Almeida. Os invasores prometeram contra-atacar.

Povo de tradição guerreira, os xikrins cansaram de esperar. Armados de espingardas e bordunas, dezenas de guerreiros retomaram uma grande invasão de centenas de grileiros que estavam desmatando a Terra Indígena (TI) Trincheira Bacajá, no município de São Félix do Xingu (PA).

A reportagem da Folha acompanhou a volta da expedição, no último sábado (25). Após andarem cerca de 40 km pela mata em três dias, os xikrins chegaram à aldeia rapkô entoando cantos e carregados com material confiscado dos invasores: motosserra, espingardas, ferramentas, panelas e até galinhas.

“O cara falou lá: ‘A terra está liberada, o Bolsonaro liberou, por isso que a gente veio. A gente quer trabalhar, quer ajudar indígena”, conta a liderança Bekara Xikrin, 42. “Eu disse: ‘Não, este indígena não quer, guerreiros velho não quer, não pode desmatar’”.

Os xikrins relataram que dezenas de hectares estavam queimados e que já havia pasto plantado em algumas áreas invadidas. Eles afirmaram que não houve violência e que os invasores concordaram em deixar a TI Trincheira.

Os invasores, no entanto, ameaçam contra-atacar. Na noite de domingo (25), um deles enviou uma ameaça em áudio junto com uma foto em que aparecem dezenas deles, que estariam se dirigindo para a aldeia mais próxima.

“Olha o tanto de gente que tinha dentro da mata pra pegar os índios aí. Tem mais de 300 homens dentro da mata caçando os índios”, diz o invasor, em mensagem de áudio enviada por WhatsApp.

“Pegaram motosserra, rancho dos homens, eles estão tudo na mata pra pegar eles, ó. Manda o Bekuro ficar velhaco, que eles estão no bagaceiro”, afirma o invasor, citando o nome da liderança da aldeia mais próxima da invasão.

A região invadida fica em uma área remota de São Félix do Xingu, com pouca presença do Estado. A estrada de acesso às aldeias tem uma base com funcionários desarmados de uma empresa privada que presta serviço para a Funai (Fundação Nacional do Índio). Só há um pequeno contingente da PM na vila de Gelado, a cerca de 2h de carro.

As primeiras invasões na área da Terra Indígena começaram em meados do ano passado. Após aliciar uma liderança, madeireiros abriram um ramal (estrada de terra) para extração ilegal. Em seguida, vieram os grileiros, que começaram a recortar a área em lote e revender.

Acionada pelos xikrins, a Funai enviou informações sobre as denúncias para o Ministério Público Federal e para a Polícia Federal, que abriu um inquérito, mas não houve ações para a retiradas dos invasores, que continuaram aumentando cada vez mais.

Procurada, a PF não enviou resposta sobre as ações contra os invasores até a conclusão deste texto. “O caso da Trincheira Bacajá envolve uma ampla omissão estatal”, afirma a procuradora da República em Altamira, Thaís Santi. “As denúncias chegaram ao MPF e à PF por meio da Funai já no ano passado. Os indígenas denunciaram, mas, por não ter reação de polícia a tempo, ela foi ampliando.”

Neste ano, a Trincheira Bacajá se tornou uma das mais importantes novas frentes de desmatamento na Amazônia, de acordo com o Ibama.

Segundo a ONG Imazon, foi a segunda TI mais desmatada no mês passado, com uma perda de 15 km².

As terras indígenas da região sofrem intensa pressão da pecuária. São Félix é o município com o maior rebanho do país —eram 2,24 milhões de cabeças de gado em 2017. “É o município que mais tinha pasto degradado na Amazônia em 2014: 286 mil hectares, de acordo com o levantamento do Inpe e Embrapa (Terra Class). Isso indica que uma grande área foi desmatada e é mal utilizada”, afirma o pesquisador Paulo Barreto, do Imazon, sediado em Belém.

“Além de usarem mal a terra, há forte indício de sonegação do pagamento de Imposto Territorial Rural. O valor médio da terra declarado à Receita Federal do Brasil no município em 2016 foi de apenas 15% do valor de mercado da terra no mesmo ano”, diz.

Interlocutor do seu povo junto aos órgãos do governo federal, Kapoto Xikrin afirma que eles estão defendendo a sua casa. “Os nossos guerreiros foram enfrentar e vão de novo. Se alguém quer pegar as suas coisas, você pode deixar? Não, né?”.


Fonte: pressreader.com - FSP

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