Caso Brexit

Com eleitor mais pobre, Boris deve atenuar Brexit

Premiê avançou em distritos ligados à indústria, setor mais afetado por possível saída sem acordo

14/12/2019 por Ana Estela de Sousa Pinto

Em sua ampla vitória nas urnas, conservadores tomaram o controle de distritos historicamente trabalhistas, ligados à indústria e com um eleitorado mais pobre. Para especialistas, isso deve levar o premiê Boris Johnson a costurar um brexit mais brando, que não afete tanto a economia nessas áreas mais vulneráveis.

londres A conquista de vários distritos antes trabalhistas, uma das causas para a vitória esmagadora do líder conservador Boris Johnson na eleição de quinta-feira (12), pode levar a um brexit mais brando, avaliam cientistas políticos britânicos.

Para chegar aos 365 de 650 assentos do Parlamento, superando com folga os 326 postos que lhe dão maioria, Boris avançou sobre a chamada muralha vermelha — um cinturão de distritos ligados à indústria e à extração mineral, no centro-norte inglês, que costumava votar na oposição trabalhista.

Com isso, o primeiro-ministro britânico atraiu para sua base eleitoral um cidadão de menor renda, menos escolaridade e com preocupações diferentes daquelas com as quais os conservadores estavam acostumados a lidar.

Até então, o público-alvo do Partido Conservador era o britânico branco, rico e escolarizado do sul da Inglaterra e do País de Gales, que apoiava o ideário de livre comércio, pouca intervenção do Estado na economia e liberdades individuais.

Agora, juntam-se a ele esses novos eleitores no centro-norte —na média, homens brancos, mais velhos, conhecidos como “blue collars” (trabalhadores braçais, operários, menos escolarizados). Nesses distritos, a porcentagem de votos em conservadores subiu 6 pontos, enquanto a dos trabalhistas caiu 14 pontos.

Um divórcio da Europa sem acordo ou com regras duras pode afetar fortemente a atividade econômica e o emprego justamente na zona industrial onde Boris avançou sobre os trabalhistas.

São eleitores que defendem o brexit (a separação teve 70% dos votos no referendo de 2016), mas que também querem mais investimento em saúde, educação e segurança pública e mais presença do Estado —pontos que não faziam parte do manual conservador.

Logo na manhã desta sexta (13), Boris declarou lealdade a esse eleitor: “Talvez você tenha apenas nos emprestado seu voto. Você talvez se considere como um trabalhista e tenha planos de voltar a eles numa próxima eleição. Se esse for o caso, estou honrado que tenha confiado em mim e jamais deixarei de lutar pelo seu apoio”, declarou.

Mais tarde, em discurso tradicional em frente à residência do primeiro-ministro, no número 10 da rua Downing de Londres, ele pediu que os britânicos começassem a curar as feridas deixadas por três anos de discussões e impasses relacionados ao brexit.

O pronunciamento se segue a outro ritual, o de visitar a rainha Elizabeth 2ª no palácio de Buckingham e lhe pedir permissão para montar o governo em nome da coroa.

Boris chegou ao palácio pouco antes das 11h e foi recebido pela rainha em audiência privada, em que fotos não são permitidas. O encontro durou 36 minutos.

Responsável pela maior vitória do Partido Conservador no Parlamento desde 1987, o primeiro-ministro assegurou cacife para impor sua visão para o brexit, mais integrada à União Europeia e menos sujeita a turbulências, segundo o pró-reitor de Pesquisa da London School of Economics, Simon Hix.

A opinião é partilhada pelo primeiro-ministro irlandês, Leo Varadkar. Em Bruxelas para o encontro de líderes europeus, ele disse que o Reino Unido deve estabelecer uma parceria comercial “plus” com o bloco europeu, sem tarifas nem cotas.

“Pelas minhas conversas com Boris Johnson, ele está nesse mesmo diapasão”, afirmou Varadkar.

O resultado incontestável dos conservadores na Inglaterra e em Gales deve servir de contrapeso também nas relações de Boris com os nacionalistas escoceses (SNP), que eram antibrexit e fizeram campanha prometendo um novo referendo para se separar do Reino Unido.

Em 2014, a permanência do bloco na União Europeia foi um dos fatores principais para que os escoceses derrotassem a hipótese de separação do Reino Unido.

Foi em parte para a líder do SNP, Nicola Sturgeon, que o primeiro-ministro se dirigiu no discurso, ao defender que o Reino Unido “merece uma pausa nas discussões, uma pausa na política e uma pausa permanente nas conversas sobre o brexit”.

Nicola, no entanto, prometeu que na próxima semana já começaria as tratativas para realizar um segundo referendo sobre a independência escocesa do Reino Unido.

O governo conservador entrará agora numa fase de negociação com a União Europeia de temas como comércio exterior, direitos humanos, legislação, ambiente e defesa, que pode durar vários anos, segundo diplomatas que atuam nesse campo.

Nesta sexta-feira, os líderes dos 27 países que formam o Conselho Europeu se reuniram com Michel Barnier, negociador da União Europeia para o brexit, para começar a deslanchar as conversas.

Boris prometeu concluir as negociações em dezembro, mas pode pedir um adiamento até julho —analistas defendem que essa é a opção mais provável.

Se mantido para dezembro, o horizonte permitirá que países como França e Alemanha imponham condições mais duras ao Reino Unido, segundo diplomatas.

Em Bruxelas, depois do encontro de líderes, o presidente francês, Emmanuel Macron, disse que os europeus vão exigir que os britânicos mantenham a adesão ao campo regulatório comum.

Angela Merkel, primeira-ministra da Alemanha, afirmou que o Reino Unido havia agora se transformado em “um competidor à soleira da nossa porta, não mais integrado a nosso mercado interno”.

Segundo ela, os britânicos precisam pesar cuidadosamente o prejuízo de abandonar as regulações adotadas hoje na União Europeia.

A margem ampla dos conservadores na eleição levou a libra esterlina a se valorizar para US$ 1,351, o valor mais alto desde junho de 2018, refletindo otimismo do mercado com a economia britânica.

A possibilidade de “seguir em frente” acabou consolando até mesmo britânicos que votaram no Partido Trabalhista, como a enfermeira aposentada Marilyn Murray, 76. “Eu preferia continuar na União Europeia, mas pelo menos agora termina esse impasse e podemos tratar de outras coisas”, disse ela nessa sexta.


Fonte: pressreader - FSP

Tags: com eleitor mais pobre - boris deve atenuar brexit