após pagamento de 1,6 milhão de dólares

Juiz concede prisão domiciliar, e Ronaldinho Gaúcho deixa cadeia no Paraguai após 32 dias

Ex-jogador e seu irmão Assis ficarão em um hotel em Assunção, após pagamento de 1,6 milhão de dólares como garantia

08/04/2020 por Martin Fernández e Raphael Sibilla

Depois de passar 32 dias em uma cadeia de Assunção, o ex-jogador Ronaldinho Gaúcho e seu irmão Assis conseguiram nesta terça-feira a mudança de regime para prisão domiciliar. Eles passarão a viver em um hotel na capital do Paraguai, enquanto esperam o desenrolar do processo ao qual respondem por terem entrado no país com documentos adulterados, no início de março.

A defesa dos irmãos declarou que tentarão agora a liberação definitiva de Ronaldinho e Assis. A decisão de reversão da prisão dos dois foi do juiz Gustavo Amarilla, em uma audiência realizada em Assunção. Os dois brasileiros já tinham tido três recursos negados no processo.

O ex-jogador deixou a prisão onde estava na noite desta terça, cerca de três horas após a decisão. Ele e o irmão foram até uma delegacia em frente ao local e seriam levados pela polícia ao hotel onde cumprirão a prisão domiciliar. Ao deixar a delegacia, ele foi abordado por um torcedor e autografou uma camisa do Grêmio.

Ronaldinho deixa a prisão no Paraguai e autografa camisa do Grêmio

Ronaldinho e Assis estavam desde o dia 6 de março presos na Agrupación Especializada, quartel da Polícia Nacional do Paraguai transformado em cadeia de segurança máxima. O juiz determinou que os dois irmãos tenham custódia policial permanente no hotel.

A defesa ofereceu uma caução de 1,6 milhão de dólares (R$ 8,3 milhões), que já foram depositados no Banco Nacional de Fomento. O valor foi pago em juízo, como garantia de que os dois brasileiros não deixarão o hotel. Em caso de fuga, o dinheiro será resgatado pela Justiça paraguaia.

- O valor da fiança foi importante. Antes haviam apresentado como garantia uma casa que não estava nem no nome dos dois, agora a defesa abriu uma conta corrente no nome deles e fez o depósito dos valores - afirmou o promotor Osmar Legal após a audiência.

Após a audiência, os advogados de defesa foram até a Agrupación Especializada, de onde Ronaldinho e Assis participaram de uma videoconferência, aceitando as condições pactuadas no Palácio de Justiça.

Depois que os termos foram aceitos de ambas as partes, Ronaldinho se despediu do juiz Gustavo Amarilla com seu cumprimento autêntico: um hangloose .

Ronaldinho e Assis serão transferidos para o Hotel Palmaroga, um edifício construído no início do século XX, no centro histórico de Assunção. O hotel, cotado como quatro estrelas pelas publicações especializadas, possui 107 quartos, com diária média no valor de 64 dólares. O local fica a 3,3 km da cadeia onde Ronaldinho e Assis passaram os últimos 32 dias. A direção do hotel já aceitou recebê-los, seguindo as condições impostas pelo juiz.

A perícia nos telefones celulares de Ronaldinho e Assis, que começou no dia 18 de março, finalmente foi concluída. O Ministério Público do Paraguai informou ao GloboEsporte.com que "continua trabalhando na produção de provas" sobre o caso, que já teve 15 pessoas presas.

Entenda o caso
Após chegarem no Paraguai no dia 4 de março, Ronaldinho e Assis receberam no hotel a visita de autoridades paraguaias à noite. Passaram a noite sob custódia e, no dia seguinte, contaram ao Ministério Público tudo o que sabiam. Admitiram que tentaram entrar no país com aqueles documentos, mas que não sabiam serem falsos. O MP paraguaio enquadrou os irmãos Assis numa figura jurídica chamada "critério de oportunidade", que a grosso modo permite aos réus não serem acusados formalmente pelos crimes que cometeram, desde que consigam reparar o dano causado. Na prática: Ronaldinho e Assis seriam submetidos a uma "pena social" – uma doação para uma ONG, por exemplo – e poderiam deixar o Paraguai.

Na audiência em que seria definida o tamanho dessa "pena social", houve uma reviravolta. A justiça não aceitou dar o "critério de oportunidade" para Ronaldinho e Roberto. O Ministério Público mudou sua posição e pediu a prisão preventiva dos irmãos Assis. Às 22h de sexta-feira, 6 de março, quando estavam num hotel próximo ao aeroporto, os irmãos Assis foram detidos e levados para a Agrupación Especializada. Desde então três recursos apresentados pela defesa de Ronaldinho foram negados pela Justiça. Os advogados de defesa não conseguiram nem mudar os irmãos Assis para uma prisão domiciliar, e nem anular a prisão preventiva, que no Paraguai pode durar até seis meses. O argumento para mantê-los presos foi sempre o mesmo: soltá-los poderia prejudicar o andamento das investigações.

O último desses recursos foi negado numa sexta-feira 13, uma semana depois da prisão. Desde então, o sistema judicial do Paraguai passou a funcionar com restrições por causa da pandemia do coronavírus. Outros recursos só serão apresentados pela defesa após o fim do recesso – que não tem data prevista. No dia 18 de março, uma terça-feira, teve início uma perícia nos telefones celulares de Ronaldinho e Assis. Quase três semanas depois, esse procedimento ainda não foi concluído. A defesa dos brasileiros diz acreditar que o resultado dessa perícia será importante para provar que eles não fizeram nada além de terem entrado no país com aqueles documentos.

Mas o que Ronaldinho foi fazer no Paraguai? A resposta passa obrigatoriamente por Roberto Assis, irmão do craque e seu agente desde sempre. Assis aceitou uma proposta apresentada por um amigo, Wilmondes Souza Lira, de abrir uma empresa para fazer negócios no Paraguai. Wilmondes é casado com Paula Lira, que por sua vez é (ou era) amiga da paraguaia Dalia Lopez, que financiou tanto a confecção dos passaportes falsificados quanto a própria viagem de Ronaldinho e Assis no Paraguai.

O "projeto" que unia Dalia Lopez, o casal Lira e os irmãos Assis era mambembe, para dizer o mínimo: transformar ônibus em "clínicas móveis", que atenderiam crianças carentes no Paraguai. Os veículos teriam a imagem do craque brasileiro. A ONG que viabilizaria o projeto não tem site na internet e nem endereço físico. Segundo o GloboEsporte.com apurou, ao aceitar o convite para viajar ao Paraguai, Roberto Assis não consultou nem os advogados brasileiros com quem trabalha há anos.

Dalia Lopez é uma empresária do ramo de exportação, alvo de uma investigação por parte do Ministério da Tributação, iniciada em setembro de 2019, e sigilosa até a chegada de Ronaldinho ao Paraguai. Ela é acusada de desviar pelo menos US$ 10 milhões em um esquema de sonegação de impostos e lavagem de dinheiro. O MP do Paraguai pediu a prisão de Dalia Lopez no dia 7 de março, um sábado. Desde então, ela está foragida, apesar de seus advogados já terem declarado que ela iria se entregar.

Wilmondes Souza Lira, o empresário amigo de Assis, está preso no Paraguai. Sua mulher, Paula Lira, que também teria sua prisão pedida, fez um acordo com o Ministério Público do Paraguai. Ela contou tudo o que sabia sobre o esquema, entregou documentos e mensagens de celular. Em troca, pôde deixar o Paraguai e voltar ao Brasil. Ela foi escoltada, de carro, até Foz do Iguaçu.

Enquanto a investigação avança a passos muito lentos, Ronaldinho e Assis seguem presos em Assunção. A rotina dos dois mudou ao longo desse mês. Nos primeiros dias, o assédio era intenso. Ronaldinho recebeu a visita de astros do futebol paraguaio, como Gamarra, e de outros jogadores ganhou presentes que deixaram menos dura sua vida na cadeia, como televisão, ar-condicionado, camas, frigobar. Foi alvo de tietagem de policiais e de gente que visitava o local mesmo sem ter nenhum parente preso; foi motivo de disputa entre outros presos, que o queriam como reforço para o campeonato de futebol interno. Viralizaram vídeos em que ele aparece jogando futsal e futevôlei.

 


Fonte: globoesporte.globo.com

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