O presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Gilmar Mendes, determinou nesta segunda-feira (13) o retorno imediato dos oito deputados estaduais de Alagoas afastados desde março de 2008 por suspeita de corrupção. Eles haviam deixado a Assembleia Legislativa do Estado após decisão liminar do juiz da 16ª Vara Cível da Capital, Gustavo Souza Lima.
Na decisão, Mendes "suspende os efeitos da decisão da ação civil pública que em parte determinou o afastamento dos réus daquela ação do exercício de suas funções perante a Assembleia Legislativa do Estado de Alagoas". Ele solicita que o comunicado seja feito "com urgência".
A Assembleia informou que ainda não foi notificada da decisão. Como a Casa está em recesso, os deputados devem retomar os cargos imediatamente e indicar os assessores, mas só voltam aos trabalhos efetivamente no dia 4 de agosto, quando está marcada a primeira sessão.
A decisão beneficia os deputados Antônio Albuquerque (sem partido), João Beltrão (PMN), Arthur Lira (PMN), Cícero Ferro (PMN), Marcos Ferreira (PMN), Dudu Albuquerque (sem partido), Nelito Gomes de Barros (PMN) e Isnaldo Bulhões Filho (PMN). Todos são acusados de integrar um esquema criminoso que desviou mais de R$ 300 milhões dos cofres da Assembleia Legislativa do Estado, desarticulado durante a Operação Taturana, da PF (Polícia Federal).
A decisão também afasta os sete suplentes que ocupavam os cargos provisoriamente. Em janeiro, Mendes já havia cassado uma primeira liminar de outra ação civil pública, concedida pelo TJ-AL (Tribunal de Justiça de Alagoas). Assim, os deputados indiciados Edval Gaia (PSDB) e Maurício Tavares (PTB) retornaram aos cargos no início do ano.
Segundo um dos advogados dos deputados afastados que ingressou com a ação, Nabor Bulhões, a decisão deve ser cumprida assim que o parlamento for comunicado. "Ela restabelece os mandatos legitimamente conquistados e a ordem jurídico-constitucional que estava seriamente abalada por uma decisão manifestadamente ilegal, inconstitucional e abusiva, consubstanciada no afastamento de agentes políticos de seus mandatos", disse em entrevista à imprensa, declarando ainda que "o Poder Judiciário não tem competência para afastar deputados".
A operação
As investigações da Operação Taturana terminaram em setembro de 2008. Dois conselheiros do Tribunal de Contas, 14 deputados estaduais, 11 ex-deputados, além do atual prefeito de Maceió e ex-deputado estadual, Cícero Almeida, foram indiciados. Ao todo, 110 pessoas foram incluídas na lista, entre eles um vice-presidente nacional de banco, 30 funcionários do parlamento e "laranjas" dos deputados.
Segundo o delegado que presidiu o inquérito, Janderlyer Gomes, o desvio superou a marca de R$ 300 milhões de reais e envolveu mais da metade dos recursos destinados pelo governo à Assembleia. "Desse montante, foi possível confirmar o volume de recursos desviado de R$ 254 milhões. Esse valor foi confirmadamente desviado. Mas esse número é bem maior", alegou.
Entenda o caso
1. Em dezembro de 2007, a PF deflagra a Operação Taturana, resultado de investigação em torno de um rombo de R$ 300 milhões nos cofres da Assembleia Legislativa de Alagoas. O inquérito, concluído em setembro de 2008, indiciou dois conselheiros do Tribunal de Contas, 14 deputados estaduais, 11 ex-deputados e o atual prefeito de Maceió, Cícero Almeida.
2. Durante a fase de investigações, o Ministério Público pediu o afastamento dos deputados envolvidos por improbidade administrativa.
3. Em primeira instância, a Justiça decidiu afastar da função quatro dos seis membros da Mesa Diretora, mas manteve os mandatos. O MP recorreu ao Tribunal de Justiça, que reviu a decisão e decidiu pelo afastamento de dez parlamentares acusados.
4. Com os deputados já afastados, o MP ingressou com mais duas ações civis públicas. Uma delas tratava de supostos empréstimos irregulares pagos com verba de gabinete e envolvia oito deputados. A outra envolve três deputados e investiga uma possível compra de carros com dinheiro da Assembleia. A Assembleia não possui Comissão de Ética e nunca abriu processos contra qualquer deputado.
5. No período de investigações, a Assembleia indicou para o Tribunal de Contas do Estado deputados indiciados que estão na função sub judice. A OAB ingressou com ações pedindo a anulação das indicações por 'falta de probidade'.
6. O deputado Antonio Holanda Junior (PTB) é cassado pelo TSE por compra de votos.
7. Depois do afastamento, os suplentes dos deputados afastados tiveram de recorrer ao Tribunal de Justiça de Alagoas para tomar posse. Em janeiro, o presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, decidiu suspender a primeira decisão liminar do TJ alagoano, alegando não ser possível o afastamento precário de deputados.
8. Com a decisão de Mendes, dois parlamentares voltaram à Assembleia, já que a segunda ação civil pública também afastava, de forma liminar, oito dos 10 deputados estaduais acusados na primeira ação.
10. Mesmo sem o retorno de todos os parlamentares, o atual presidente, Fernando Toledo (PSDB), decidiu afastar os suplentes e convocou uma nova eleição para a Presidência da Casa, em caráter precário, segundo a própria Assembleia.
11. A Justiça alagoana, então, determina a volta dos suplentes e suspende mais uma vez a eleição da Assembleia.
12. No dia 16 de fevereiro, quando estava marcada uma nova eleição precária, autorizada pela Justiça, integrantes de dezenas de movimentos sociais ocuparam a sede da Assembleia Legislativa de Alagoas e realizaram uma "assembleia popular", "cassando" o mandato de todos os deputados afastados.
13. A Casa só voltaria aos trabalhos no dia 3 de março. Antonio Albuquerque, afastado, sai da presidência. O deputado Fernando Toledo é eleito, no dia 5 de março, presidente da Casa para o biênio 2009/2010.
14. O presidente do STF decide pelo retorno dos deputados estaduais afastados por uma liminar da Justiça.