Uma revolução na veia. Há pouco mais de dois meses, o sangue do funcionário público Carlos Burgus corre cada vez mais livre de açúcar. O pernambucano de 53 anos radicado em Maceió é o primeiro paciente a fazer a nova cirurgia apontada como a cura da diabetes tipo 2 no Norte/Nordeste. Por trás do bisturi, o cirurgião alagoano Bruno Mota, 30 anos, atesta que o diabético não precisa mais de medicamentos ou dieta rigorosa para controlar a taxa de glicose.
Uma revolução na vida. Quando descobriu ter diabetes há onze anos, Burgus começou a travar duas batalhas, uma contra os efeitos da doença e outra contra o apetite voraz. O advogado sempre impressionou amigos e parentes pela grande quantidade de comida que ingeria.
Nenhum paciente apresentou reação ao procedimento
Mais de 600 pacientes diabéticos não-obesos foram submetidos à cirurgia no Brasil e nenhuma reação adversa foi identificada até o momento. A descoberta da anunciada cura da diabetes 2 é atribuída ao brasileiro Áureo Ludovico de Paula, o primeiro cirurgião do mundo a realizar este procedimento, no ano de 2005, no Hospital Neurológico de Goiânia.
Após os avanços registrados nas pesquisas e publicados em revistas científicas internacionais, grupos de especialistas dos Estados Unidos e da Índia vieram assimilar as técnicas desenvolvidas pelo professor Ludovico e introduzi-las em seus países. No Brasil, a cirurgia só é realizada em Goiás, no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, e em Alagoas.
Brasil já tem 8 milhões de pacientes
Para se ter uma ideia da dimensão da descoberta brasileira, o mundo tem hoje mais de 250 milhões de diabéticos que consomem diariamente uma fortuna em medicamentos para combater a doença.
No Brasil são 8 milhões de pacientes, mas o número deve subir para 12 milhões no ano de 2030. A cura encontrada de uma maneira tão inusitada já começa a provocar reações contrárias.
Segundo os cirurgiões que desenvolvem a técnica, há uma resistência grande dos endocrinologistas e a indústria farmacêutica não estaria nada satisfeita com os resultados que afastam os pacientes das farmácias.
Advogado economiza depois de cirurgia
A farmacinha de casa do advogado Cláudio Burgus e as contas do restaurante mudaram bastante depois da cirurgia de interposição do íleo. As caixas de medicamentos foram dispensadas, assim como o velho costume de comer “feito um louco”. Segundo ele, o alto investimento para pagar os médicos e o hospital na rede particular vai logo ser revertido com a economia dos remédios que deixou de tomar e com o consumo mais moderado de gêneros alimentícios.
“Só de remédios, eu gastava mais de R$ 300 por mês, a cada dia eu tomava um ou dois Galvos para a diabetes, um Diovan para hipertensão e uma Sivastatina para o colesterol”, contabiliza Burgus. Após anos de tratamento e de esforços para deixar de comer tudo o que gostava, o paciente agora se delicia com sorvetes, tortas e doces sem se sentir culpado e, o que é melhor, sem precisar se esconder de ninguém.
Morte de células provoca doença
Uma pessoa é considerada diabética quando a taxa de glicose passa de 100 mg/dl em jejum ou fica acima de 160 mg/dl após uma refeição. Isso acontece por causa da morte das células Beta, que ficam no pâncreas e produzem o hormônio insulina, responsável pelo controle do açúcar no sangue.
No início da diabetes do tipo 2, cerca de 50% do pâncreas já não tem a função ideal. Mesmo que a doença seja controlada com medicamentos e dieta, a tendência é a morte de todas as células Beta. Na diabetes do tipo 1, que se manifesta na infância e adolescência, o organismo não reconhece o pâncreas. Neste caso, a cirurgia não resolve a disfunção.