Brasil Chega Atrasado na Terapeuta do Passado
07/01/2026, 12:13:00O país chega atrasado na terapia, culpa o passado, teme o futuro, foge do presente e confunde atitude com maturidade
Uma psicanalista amiga minha relatou que o primeiro paciente dela foi o Brasil. Nem julguei. Se tem gente que se traumatiza com um simples "não", como é que o país não vai surtar tentando lidar com tanto problema? Disse que ele chegou atrasado. Uns 526 anos mais ou menos. Chegou falando alto, interrompendo a terapeuta e avisando logo de cara:— Olha, doutora, o problema não sou eu, são eles! Deitou no divã, cruzou os braços e as pernas e começou reclamando. Do passado, do presente, do futuro e, talvez, tenha até inventado um tempo que nem existe ainda. Afinal, tudo é culpa de alguém, mas nunca dele. Quando a terapeuta perguntou há quanto tempo ele se sente assim, ela percebeu uma obsessão estranha por datas:— 1500, 1822, 1888, 1922, 1930, 1964, 1989, 2002, 2013, 2018, 2022… Sempre algum trauma favorito para justificar o surto atual. Ela entendeu rápido que o Brasil sofre de nostalgia patológica. Vive dizendo que "antes era melhor", apesar dos problemas da época, mas não sabe explicar exatamente quando, nem para quem. Requentou músicas, filmes, discursos, brigas, slogans e inimigos imaginários até transformar o passado num colchão velho: desconfortável, manchado, fedido, mas conhecido. Paradoxalmente, ela também percebeu que o Brasil é ansioso. Além de ficar mudando de posição no divã, anseia por um futuro perfeito, rápido, imediato e, de preferência, sem esforço pessoal. Quer mudança, mas não quer mudar. Quer ordem, mas odeia regra. Quer justiça, desde que não seja com ele. Ela me contou rindo que uma das partes mais irônicas da terapia foi quando ela perguntou o que ele fez de diferente desde a última crise, e ele respondeu:— Nada, mas tenho esperança. Sou laico, mas tenho fé! Ela me disse que o estado é grave porque está permanentemente em emergência emocional. Tudo é urgente, tudo é escândalo, tudo é o fim do mundo. Ou tudo é ditadura, ou tudo é fascismo. Também contou que foi difícil trazer o Brasil para o presente:— Vamos falar do agora. Ele ficou meio reativo dizendo que não dava, que agora estava resolvendo o passado e com medo do futuro. Sem ser da área, concluí:— Caramba, esse Brasil não tá vivendo, tá sobrevivendo! Diagnóstico dela: o problema do Brasil não é falta de informação, nem de opinião, nem de repertório. É excesso. Excesso de estímulo, excesso de certeza, excesso de barulho. Uma mente assim não reflete. Ela só grita. O Brasil é carente de um líder que resolva tudo como pai e um colo pra reclamar como mãe. Freud na veia! E o mais louco é que reclamava que não tem nenhum amigo, mas não enxerga que trata todo mundo como inimigo. E não entendeu quando ela apontou isso porque precisava de uma explicação simples pra um problema complexo. No fim da sessão, a terapeuta não ofereceu solução milagrosa. Só perguntou:— Você já pensou em agir de forma responsável reconhecendo algum erro em vez de ficar apenas reclamando? E a resposta foi um grito grosseiro:— Você quer atitude responsável? Táqui a sua atitude! Levantou as mãos, mostrou os dedos do meio e disse que não voltaria mais. Correu em direção à porta gritando que ela era parcial e claramente enviesada com mensagens subliminares. Ela ainda tentou apaziguar dizendo que a culpa não era mesmo dele, que a raiz de tudo poderia estar nos pais. Ele bateu a porta forte e gritou:— Portugal não tem culpa nenhuma! Isso é xenofobia! VERMELHO de raiva, tirou a bandeira que usava como capa e saiu correndo pelas ruas de havaianas, sob o olhar curioso de um cãozinho caramelo.
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