Quando a morte faz parte da politicagem a dignidade também morre

O uso da dor humana como estratégia revela o esgotamento moral do debate público.

Quando a morte faz parte da politicagem a dignidade também morre

Há um limite ético que, quando ultrapassado, transforma a política em algo menor que ela mesma. Quando a morte passa a ser usada como instrumento de discurso, palanque ou conveniência, já não se trata mais de disputa de ideias, mas de um colapso moral. A politicagem, nesse estágio, deixa de ferir apenas adversários: ela profana a dignidade humana.

A morte deveria ser um ponto final de silêncio, respeito e reflexão. No entanto, em tempos de radicalização e oportunismo, ela vem sendo convertida em moeda política. Vira estatística seletiva, bandeira conveniente ou narrativa moldada conforme o interesse do momento. Não há luto verdadeiro onde há cálculo eleitoral.

Quando tragédias são exploradas para atacar, justificar omissões ou construir heróis artificiais, o que se revela não é compromisso com a vida, mas desprezo por ela. A dor alheia passa a ser ferramenta, e o sofrimento coletivo, um degrau para alcançar visibilidade, curtidas ou votos. Nesse cenário, a dignidade não resiste: ela é a primeira vítima invisível.

Pior ainda é quando a morte é relativizada conforme o lado político. Algumas vidas parecem valer mais que outras, dependendo de quem morreu, onde morreu e em que contexto morreu. Esse duplo padrão revela uma política adoecida, incapaz de reconhecer que a vida humana não admite hierarquias ideológicas.

A politicagem que se alimenta da morte também mata o debate público. Ela empobrece a discussão, afasta a empatia e normaliza o desrespeito. Em vez de soluções, promove narrativas. Em vez de responsabilidade, espalha culpa. Em vez de memória e aprendizado, cultiva o esquecimento conveniente.

Resgatar a dignidade na política passa, necessariamente, por resgatar o respeito à morte e aos mortos. Significa compreender que nenhuma causa é nobre quando precisa pisar em cadáveres para se sustentar. Que nenhuma vitória eleitoral justifica o uso da dor como argumento.

Quando a morte entra no jogo da politicagem, a política deixa de servir à vida. E sem vida, sem respeito e sem dignidade, o que resta não é política — é apenas ruído, cinismo e vazio moral.

Creditos: Professor Raul Rodrigues