Nikolas Ferreira e a Espera por um Milagre Político

Nikolas Ferreira e a Espera por um Milagre Político

O Brasil e a Espera por Deus


Quando líderes são tratados como pais, mitos ou enviados, a democracia fica suspensa e a responsabilidade fica em segundo plano. O Brasil ainda espera por Deus. Ou, pelo menos, por alguém que ocupe esse lugar. A ideia de que "Jesus está voltando" atravessa séculos como promessa de alívio: não agora, não por nós, mas depois, por alguém maior, mais forte e moralmente superior. É uma espera confortável. Enquanto Ele não chega, a responsabilidade é adiada. A gente fica na expectativa de que Ele está chegando. Qualquer mínimo sinal, automaticamente a gente pensa: "Será que é Ele???"

A Política Brasileira: Entre a Esquerda e a Direita


Na política, essa lógica nunca foi abandonada. Os políticos não só se aproveitam como alimentam essa esperança. À esquerda, Lula virou painho. Não é só força de expressão, é um símbolo para parte de seus apoiadores: o pai que protege, que acolhe, que resolve. O pai humano, falho, mas necessário. A figura que permite ao adulto voltar a ser filho quando o mundo aperta. À direita, Jair Bolsonaro virou mito. O apelido, que ele próprio incorporou em produtos e campanhas, coloca a figura acima do homem comum. Aqui o pai não é humano, é entidade. Não erra, não aprende, não explica. Está acima da crítica. Se algo dá errado, o problema nunca é dele. É do sistema, do inimigo, da conspiração.

Nos dois casos, a mensagem é a mesma: alguém fará por nós aquilo que não queremos fazer por nós mesmos. A política brasileira se organiza muito mais em torno de personagens do que de projetos coletivos. Não se organiza como maturidade democrática, mas como espera messiânica. A democracia exige ação. O salvador, humano ou não, exige fé.

A Fé e a Manipulação Política


É nesse inconsciente coletivo que entra Nikolas Ferreira caminhando cerca de 240 quilômetros. Poderia ter sido uma carreata, uma motociata, mas aquilo não foi deslocamento, foi um ritual. Caminhadas longas há séculos fazem parte da linguagem religiosa: peregrinação, sacrifício, purificação, missão. O corpo vira discurso. O cansaço vira prova. O sofrimento legitima a causa. Não importa o destino. Importa o signo construído no caminho. Nikolas não está apenas andando. Ele está comunicando num idioma que seu público entende muito bem. Um idioma onde raios viram sinais divinos, pedras no pescoço viram sacrifício e esforço físico vira autoridade moral. Tudo compõe um cenário divinamente terreno. Uma leitura precisa do imaginário.

A Reflexão Final: Precisamos de um Espelho


Mas aqui está o ponto que quase sempre fica ausente do debate. Deus não está fora. Deus está dentro. Enquanto o Brasil insistir em imaginar Deus como algo externo, alguém que desce, intervém, escolhe um ungido e resolve, continuará esperando. O pai. O mito. O herói. O salvador. O escolhido. Quando Deus é pensado como algo interno, a lógica muda. Se Ele está dentro, a ação é nossa. A ética é nossa. A responsabilidade é nossa. Não há milagre político possível sem atitude cotidiana. Não há redenção coletiva sem maturidade individual.

Esperar por um salvador é um gesto bastante infantil enquanto que assumir responsabilidade é algo profundamente adulto. Estamos prontos pra encarar as consequências das nossas escolhas? Talvez o maior problema do Brasil não seja a falta de líderes, mas o excesso de gente disposta a terceirizar a própria consciência. Porque enquanto a gente espera que alguém venha nos salvar, nada muda de verdade. E isso, ao contrário do que parece, não é falta de fé. A real é que estamos vivendo de uma síndrome de excesso de comodidade.