No Brasil tudo agora é manifestação

Ruídos das ruas com ou sem razão vêm tomando conta do país concentrados em Brasília ou espalahados pelos estados. Mas nunca maior que a neutralidade

No Brasil tudo agora é manifestação

Manifestação de apoio, de repúdio, de preocupação, de nota oficial, de hashtag, de silêncio calculado. Se alguém espirra fora do protocolo, logo surge uma manifestação. Se chove demais, manifesta-se. Se não chove, também. Se fala, manifesta. Se não fala, manifesta-se o silêncio — que, curiosamente, também vira posicionamento.

A palavra, que nasceu para expressar vontade popular, virou guarda-chuva conveniente. Serve para protestar sem sair de casa, para apoiar sem compromisso e para criticar sem assumir consequência. Manifesta-se nas redes, mas raramente nas ruas; no texto ensaiado, mas quase nunca na prática.

Tudo é manifestação porque nada quer ser decisão. Decidir exige coragem, responsabilidade e risco. Manifestar é mais seguro: não vincula, não obriga, não muda. É o verbo preferido de quem teme o substantivo “ação”.

Partidos se manifestam quando deveriam agir. Autoridades se manifestam quando deveriam responder. Instituições se manifestam quando deveriam cumprir seu papel. E o povo, cansado, assiste a esse desfile de palavras ocas como quem vê um teatro repetido, sabendo o final antes do primeiro ato.

No Brasil atual, a inflação é manifestação, a violência é manifestação, a injustiça é manifestação. Só a solução não se manifesta nunca. Talvez porque solução não se escreve em nota — se constrói.

Creditos: Professor Raul Rodrigues