A soberba destrói políticos antes, durante ou depois dos mandatos
10/02/2026, 17:50:21Os que mais caem por terra e passam a viver do ostraciscmo são os que não ouvem, não enxergam, e desprezam as imagens do retrovisor. E outros, por esquecerem as suas origens.
A pergunta não admite resposta numérica. Não há estatística oficial, planilha do TCU ou levantamento do IBGE capaz de mensurar a soberba. Ela não deixa rastro contábil imediato, não aparece no Diário Oficial e tampouco é tipificada como crime. Ainda assim, talvez seja uma das causas mais recorrentes de quedas políticas no Brasil.
A soberba, na política, costuma nascer do excesso de poder sem freio, da vitória fácil, da bajulação permanente e da falsa sensação de invencibilidade. O político soberbo passa a confundir cargo com trono, mandato com herança, voto com submissão. E, quando isso acontece, a realidade costuma cobrar com juros altos.
A história brasileira é pródiga em exemplos. Governadores que se acreditaram imbatíveis e perderam eleições consideradas “ganhas”. Prefeitos que ignoraram aliados, desdenharam do povo e foram abandonados nas urnas. Presidentes que passaram a se ver como únicos intérpretes da nação e acabaram isolados, enfraquecidos ou depostos politicamente. Em todos os níveis — municipal, estadual e federal — a soberba tem sido uma armadilha silenciosa.
Ela se manifesta de várias formas. Às vezes, no desprezo pela opinião pública. Outras, na recusa em ouvir técnicos, assessores ou aliados históricos. Há também a soberba que se revela no discurso agressivo, na ironia contra críticas legítimas, na crença de que “ninguém faz melhor”. Quando o governante começa a falar sozinho, cercado apenas de aplausos, o fim do ciclo já está em curso.
O eleitor brasileiro, embora frequentemente acusado de desmemoriado, tem demonstrado sensibilidade a esse vício. A queda abrupta de líderes outrora populares revela que o voto, mais cedo ou mais tarde, pune o excesso de arrogância. A soberba cansa, distancia e quebra pontes. E política, no fim das contas, é construção de pontes, não de pedestais.
Não se trata de negar a importância da autoconfiança. Governar exige firmeza, convicção e coragem para decidir. O problema começa quando a convicção vira vaidade, a coragem vira autoritarismo e a firmeza se transforma em desprezo. A linha é tênue — e muitos a ultrapessam sem perceber.
Portanto, à pergunta inicial — quantos políticos no Brasil foram vítimas da soberba? — a resposta mais honesta talvez seja: muitos. Talvez a maioria dos que caíram de forma inesperada. Porque, na política brasileira, a soberba raramente mata de imediato, mas quase sempre deixa sequelas fatais para a carreira. E, como ensina a história, nenhum mandato é maior que o povo — por mais que alguns insistam em esquecer disso.