Matti Caspi e seu legado musical entre Brasil e Israel
11/02/2026, 09:06:00Matti Caspi e seu impacto cultural
No último domingo, a música israelense perdeu um de seus maiores nomes — e o Brasil perdeu um amante fiel. Matti Caspi, compositor, cantor e letrista, foi o responsável por criar, com a MPB, um elo de amor duradouro entre israelenses e brasileiros.
O câncer levou o artista, mas não sua obra. Ele deixa entre nós uma produção impressionante: mais de mil canções, dezenas de álbuns, inúmeras colaborações e momentos históricos inesquecíveis. Entre eles, a apresentação ao lado do músico canadense Leonard Cohen para tropas israelenses estacionadas na Península do Sinai durante a Guerra de Yom Kippur, em 1973.
Para os brasileiros, porém, sua herança é ainda mais particular. A partir da década de 1970, Matti Caspi começou a trazer a MPB para Israel — e não apenas como influência, mas como tradução cultural genuína. Transformou a música brasileira em um produto (quase) Made in Israel. Traduziu e adaptou para o hebraico dezenas de canções consagradas do cancioneiro brasileiro. Produziu o álbum A Bela Terra Tropical, composto exclusivamente por músicas brasileiras. Quem diria que sons como País Tropical ou Trem das Onze se tornariam clássicos no Oriente Médio?
Palmas para Matti Caspi. Ele seguirá presente — em todos, absolutamente todos — os eventos brasileiros e rodas de samba que acontecem em Israel com uma frequência muito maior do que se imagina.
A relação entre brasileiros e israelenses
A história de Matti Caspi ajuda a explicar algo maior. A relação entre brasileiros e israelenses sempre encontrou na cultura um terreno mais firme do que na política. Não é de hoje que os governos de Israel e do Brasil atravessam momentos de turbulência. O atual é exemplar: há uma crise diplomática marcada, inclusive, pela ausência física de diplomatas de ambos os lados.
Ainda assim, israelenses e brasileiros seguem cultivando uma relação de respeito e amizade — com a exceção previsível dos radicais de plantão, essa praga mundial. De saída, Israel nunca se cansa de agradecer a Oswaldo Aranha, o diplomata brasileiro que presidiu a sessão da Assembleia Geral da ONU que aprovou a Resolução 181, abrindo caminho para a criação do Estado de Israel. Mas o carinho vai muito além disso.
Os israelenses são apaixonados por tudo o que remete ao Brasil: praias, carnaval, futebol, culinária, idioma. Os dois povos compartilham o dom da alegria e do savoir-faire. É um casamento fadado a dar certo — que só sai de compasso quando governantes e instituições brasileiras cutucam-se mutuamente com vara curta.
Mesmo nos momentos de crise, o relacionamento entre os dois países segue adiante, ainda que com algumas lombadas pelo caminho. Ele se expressa em convênios educacionais e agrícolas, na compra de tecnologia israelense de todos os setores imagináveis — inclusive o militar, acredite se quiser —, no turismo e em parcerias empresariais variadas. Há também cooperações fundamentais na área médica.
Os decisores de ambos os países sabem que governos passam. O potencial de parceria, não.
O turismo evangélico e Matti Caspi
Existe ainda um outro elo poderoso entre Brasil e Israel — e ele passa pela religião, embora não pela judaica. A esmagadora maioria dos turistas brasileiros que chegam ao país é evangélica. Trata-se de um público conhecido em Israel por sua simpatia, seu afeto e seu profundo respeito pelo país. Sempre em grandes grupos, muitas vezes guiados por pastores, eles são presença facilmente identificável, em especial nos circuitos de turismo cristão.
Aliás, neste momento em que o setor turístico começa a dar sinais de recuperação por aqui, os evangélicos são os primeiros a reaparecer, dando uma banana para a ameaça iraniana.
E é muito provável que, em algum momento por aqui, esses turistas ouvirão Matti Caspi cantar O Que Será Que Será em uma língua que não entendem — mas com uma emoção que compreendem perfeitamente. É assim que Caspi seguirá vivo: traduzindo sentimentos e lembrando que, quando a política falha, a música pode dar conta do recado.