Cansados e Cheios de Culpa: A Realidade dos 40+
12/02/2026, 15:10:09O Cansaço da Geração 40+
As pessoas 40+ nunca estiveram tão cansadas. Por que será? Chove lá fora e aqui não faz tanto frio, mas mesmo assim cubro com o lençol o pequeno que acabou de voltar da escola. Depois de tanto choro, ele para de insistir em comer bolo antes do almoço e dorme. O problema não era fome, era sono. O filho mais velho está com a mãe em um dos mil exames com psicólogos desde que a diretora exigiu um laudo para explicar a recusa dele em sentar e ficar quieto em sala de aula. O filho do vizinho, com sinais de TDAH, se recusou a fazer o mesmo e foi convidado a se matricular em outra escola. Já não se expulsam mais as crianças das instituições de ensino como antigamente. Para não cair na nota de corte, é preciso comprovar as atividades extraclasse que envolvem terapias e fono. E remédios, de preferência, como fazem os adultos para dormir e depois para se manter de pé.
Pego o livro que comecei a ler no recesso de fim de ano e que ainda não terminei. Quero escrever sobre, mas demoro porque no caminho respondo uma dezena de mensagens, a maioria relacionada a trabalho, mesmo no meu horário de almoço. Já leu o texto? Já viu o filme? Vai escrever sobre? Conseguiu dar uma olhadinha no nosso orçamento? Agendou a entrevista? E a nossa sugestão de pauta? Tudo respondido, antes de as mensagens se acumularem de novo, como uma jogo de Tetris, deito no sofá ao lado e lembro que não recolhi as roupas do varal. Volto com o cabelo molhado e um total de duas peças salvas da tempestade. A rede que estendi nos fundos da casa, dias atrás, na esperança (risos) de esticar as pernas num fim de tarde de sol está encharcada. "Sai daí", grito com a cachorra maior, em um decibel acima do tom permitido e que faz meu filho levantar assustado. Acalmo, volto a cobrir, digo que está tudo bem. Ele embala no sono novamente. O touro de 40 quilos decide, então, amolar a cachorra menor. Que chora. Late. Avança. Monto barricadas pela casa e fecho uma das portas, que começa a ser arranhada até quase desabar. Mais choro. Mais latido. Desisto. Deixo o livro de lado e vou arremessar as bolas de tênis para o bicho que já respira ofegante depois de dois dias ilhado em casa por causa dos temporais. Não é uma boa ideia. Cada vez que ela volta do quintal os desenhos da pata torneada de lama se multiplicam. Ela se encharca também, e em instantes a casa toda ganha a forma e a fragância de um cachorro molhado. Fica tudo ainda mais bonito com os brinquedos, as folhas de desenhar e os sapatos temporariamente dispostos em cima da mesa. Antes a frustração estética do que o risco de ela devorar tudo numa bocada. No 30º arremesso, encerro a brincadeira. Não sem protestos. Vai ficar de cara feia, sim. Volto para o sofá com meu livro e tento me concentrar enquanto ela destrói o recipiente de plástico que revirou do lixo. Rastros de destruição pela casa viram um ruído para quem precisa de um pouco de ordem para se concentrar na leitura. Mesmo assim, ignoro. A pequena, no meu colo, se treme diante da agitação da companheira/rival, que já não me chama a atenção pelo barulho, mas pelo silêncio dos réus. Vou ver o que é e é batata: de pirraça, ela esguicha no chão da cozinha uma lagoa Rodrigo de Freitas de urina canina. Levanto, enxugo, jogo os trapos no balde com água sanitária. Aproveito e limpo as pegadas de terra e recolho os destroços. Deito finalmente, mas a leitura não flui. Estou cansado e em dívida com a oftalmo, que me pediu pra substituir as lentes de contato que me ferram a vista por novos óculos e muito colírio. Organizar a ida até a farmácia é atravessar um território conflagrado em dias assim. Fico com a vista cansada mesmo, e nem dá tempo de reclamar porque a criança já acordou e agora quer leite.
Levanto, não sem antes responder ao contador que precisa mudar o cadastro da empresa na prefeitura e precisa de uma foto minha. E de honorário extra, claro. A cada nova interrupção sinto a ampulheta dessa brincadeira chamada existência escorrer. E isso me angustia. Em instantes começo a trabalhar e fica cada vez mais explicado por que já abro o computador tão culpado e com a língua de fora. Nem quando subia a pé ou de ônibus a Teodoro Sampaio inteira até a redação na avenida Paulista me sentia esgotado assim. No transporte público ainda podia ler, mas agora é mais fácil trocar Gabriel García Márquez pelo Instagram, que me garante dopamina barata e me desvia, por instantes, das prioridades do dia. A prioridade máxima, no caso, é evitar que meu filho, que está desfraldando, se afogue na nova poça de urina -- agora humana -- enquanto escrevo sobre a última da família Bolsonaro. Rolo o feed e, de repente, as urgências são outras. O que vejo ali é gente jovem, disposta, bem alimentada, corada, feliz, com três filhos nos ombros, uma piscina ao fundo, e a barriga trincada perguntando "e você, qual a sua desculpa?" Olho para o meu umbigo querendo estourar o último botão que nos separa do estado de natureza e amaldiçoo cada grama de manteiga que joguei no pão pela manhã. Era melhor ter aberto o vinho, mas lembro que prometi não beber na frente das crianças desde que assisti "Valor Sentimental" e fiquei em pânico com a possibilidade de as crianças sofrerem ataques de pânico quando se tornarem adultos por causa de um pai irresponsável. Mentira: só aboli álcool dentro de casa porque o conforto instantâneo estava se convertendo em ressaca, mais cansaço, mais ansiedade e improdutividade, física e intelectual, no dia seguinte. E, em dias como este, de pouca farinha e menos pirão ainda no mercado de trabalho, é preciso estar atento e forte, me lembram os algoritmos da rede social projetada para projetar corpos perfeitos em ambientes profissionais de sucesso e casas instagramáveis. O corpo do atleta é hoje um valor social, e nos stories está tudo pago ao fim de um dia de treino. Quem não tem disciplina e autocontrole para ostentar nas redes não ganha medalha nas provas de resistência, espécie de vestibular da vida adulta. Nem pódio nem beijo de namorada, com declarações de amor, na linha de chegada do fim do ano como para dizer às outras amigas "eu tenho, você não tem". Na primeira brecha, combino comigo mesmo, vou pra academia, já tentando enganar o coração que não se cansa de um dia ser tudo o que quer -- e o que quero é administrar tudo sem cansaço, como tantos parecem conseguir. Nosso papel é irradiar felicidade, e o mundo não gosta de gente que vacila. Tento ficar em dia com tudo. Mas ao fim do dia o que tenho é mais cansaço. E dívidas. Comigo mesmo e com o mundo. Corto a cena e fico imaginando se meus pais, nessa travessia dos 40 anos, também se sentiam assim. Ou os pais deles quando resolviam qualquer problema sobre a criação dos filhos colocando a criança de dez anos para cuidar da irmã de nove, o de oito do de 7, e assim sucessivamente até o bebê de colo que já nascia carpindo a roça. Não sei se os adultos sentiam culpa, mas lembro que bebiam, e bem, na frente das crianças nos dias de folga para esquecer a dureza da infância roubada. Ou nas horas em que arrumavam trabalho de bar em bar para não chegar em casa e ter de lidar com a energia infantil ou canina das próprias escolhas. Alguns desapareciam, e a culpa era da divisão social do trabalho, que deixava com as mães a tarefa de cuidar da casa. Nem todas. Quem tinha condições terceirizava os cuidados com as faxineiras (hoje um absurdo moral, logístico e trabalhista, com toda razão) ou mandavam os filhos para a casa das avós, gratas por finalmente terem algum projeto de vida entre elas, a cozinha e os avôs entediados. Já era bem errado encher uma Belina com 35 crianças e levar para a pescaria, mas se alguma coisa não cabia ali no carro do vô era culpa. De volta às aulas, andávamos em fila indiana e em bando da escola para casa sem ter sequer completado dez anos. Sim, era errado antes e segue errado agora. Nossos tédios resolvíamos por nós mesmos. Às vezes socando o irmão mais novo sem razão aparente a não ser a ausência de mediação adulta na sala. Às vezes fuçando os cigarros escondidos no armário do quarto de casal. Outras vezes fumando os cigarros proibidos para saber que gosto tinham. Às vezes com videogame. Às vezes com algum VHS. Às vezes com a MTV. Às vezes apertando a campainha da vizinhança e saindo correndo. Às vezes só pegando a bicicleta para encontrar outras crianças entediadas em outras casas onde os pais ou estavam ausentes, trabalhando, ou faziam vista grossa nos entupindo de bolacha. Sim, tudo errado, mas os adultos estavam ocupados demais sendo adultos disfuncionais para cuidar de mais alguém. De culpa já bastava o padre dizendo que não podia desejar a mulher do próximo (e não havia mais do que cinco naquele mundo resumido a um quarteirão). Nossa geração, em compensação, tem como vitrine o mundo todo, e tem razão meu amigo Michel Alcoforado em dizer que, com tantas possibilidades, parte do nosso cansaço é não conseguir fazer escolhas e querer viver num ritmo frenético de adolescente sem levar em conta os marcos (e os cansaços) da vida adulta. Mas quem fez escolhas e seguiu todos os marcos da maturidade desde cedo (eu!) estão igualmente esgotados. E culpados. Sobretudo pelo que não podem mais fazer. A minha é por não ter visto dois dos cinco gols do meu filho no treino de futebol enquanto respondia mensagem no WhatsApp (confesso: dessa vez nem era trabalho). Depois que esse app foi inventado, ninguém desistiu de falar comigo por tocar e não encontrar ninguém em casa. O efeito-rebote é a sensação perene de estado de alerta. Ao menos valeu a pena ter acordado mais cedo aos sábados e treinar com ele, que é destro, o chute de canhota, usado nos gols que ainda consegui assistir. Pena que não deu tempo de registrar e ostentar como deveria e garantir meus biscoitos por fazer o básico sem culpa. Deveria? Tenho a impressão de que há algumas décadas a maioria dos adultos estava bem, obrigado, com as próprias compensações. As referências eram outros adultos envelhecidos com barriga de chope num tempo em que não havia rede social para nos lançar em uma competição com outros pais e esfregar na cara os nossos fracassos. Hoje, sem horas fixas e com o mundo ao alcance, não nos desconectamos nunca enquanto nos equilibramos em trabalhos precarizados para bancar tudo o que hoje é chamado “item de primeira necessidade”: portão elétrico, segurança na porta de casa, carro equipado (sdds vidros corta-vento), TV de 800 polegadas, mil canais de streaming, iPhone, atividades extraclasse, inglês, espanhol, alemão, buffet infantil, uma geladeira sem ultraprocessados nem tantas dedos de especialistas que estão aí para enriquecer e provar que existe um manual sim, nossos pais (e a ciência) que não sabiam e só não cumpre quem não quer. Ou não finge direito para tirar no fim do ano o selo de pai, mãe, marido, mulher e profissionais do ano. Fora dos stories ou dos efeitos dos medicamentos, uma conversa na mesa de bar (num raro caso de vale night, porque é preciso também ter a vida social em dia para não falhar até nisso) basta para saber que ninguém está bem. Para dar conta de tanto, falhamos em quase tudo.