A origem do Comando Vermelho na Ditadura Militar

A origem do Comando Vermelho na Ditadura Militar

A articulação na década de 1970

Na década de 1970, em plena Ditadura Militar, o Brasil assistiu ao surgimento de uma articulação que daria origem a uma das mais conhecidas facções criminosas do país. No Instituto Penal Cândido Mendes, em Ilha Grande, no Rio de Janeiro, presos políticos foram colocados na mesma ala que detentos condenados por crimes comuns. Muitos dos militantes haviam sido presos por participação em assaltos a bancos, prática recorrente entre grupos que buscavam financiar a resistência ao regime.

Intermediando reivindicações

A convivência entre os dois grupos alterou a dinâmica interna do presídio. Enquanto parte dos presos comuns tinha baixa escolaridade e pouco conhecimento sobre direitos e organização coletiva, os presos políticos apresentavam maior grau de instrução e experiência em articulação. Com o tempo, passaram a intermediar reivindicações e negociações por melhores condições carcerárias, contribuindo para a formação de uma estrutura organizada dentro da unidade.

O nascimento do Comando Vermelho

Dessa articulação nasceu o grupo que, inicialmente, se chamou Falange da Segurança Nacional. O nome foi posteriormente alterado para Falange Vermelha e, mais tarde, consolidado como Comando Vermelho. Com a promulgação da Lei da Anistia, em 1979, muitos presos políticos foram libertados. Segundo pesquisadores, a saída dessas lideranças enfraqueceu a pauta por direitos e justiça social dentro das prisões.

Expansão e ameaças

Na década de 1980, diante da precariedade do sistema prisional e da ausência de melhorias, detentos passaram a planejar fugas em massa. Mais de cem presos conseguiram escapar de unidades prisionais no período. Após as fugas, foi registrada uma nova onda de assaltos a bancos. Com os recursos obtidos, o grupo ampliou sua atuação e passou a investir no tráfico de cocaína.

Conflito pelo controle do tráfico

O mercado do tráfico de drogas já era disputado por diferentes grupos criminosos quando as rivalidades se intensificaram e as disputas por território se tornaram mais violentas. Nesse contexto, aumentou significativamente a demanda por armas de fogo, o que impulsionou o comércio ilegal de armamentos. Investigações apontaram, inclusive, a participação de policiais no desvio de armas e fuzis das forças de segurança para abastecer o crime organizado.

A resposta do estado

Já no início dos anos 2000, em uma tentativa de enfraquecer o grupo, o governo do Rio de Janeiro adotou a estratégia de transferir lideranças presas para unidades prisionais em outros estados. A medida, no entanto, teve efeito contrário ao esperado. A presença desses chefes fora do estado acabou contribuindo para a expansão da facção para novas regiões, fortalecendo sua articulação nacional e consolidando sua posição como uma das organizações criminosas mais influentes do Rio de Janeiro. Segundo pesquisas recentes, o Comando Vermelho tem atuação em 26 estados brasileiros.

Os principais fundadores

Os principais nomes apontados como fundadores e articuladores iniciais incluem: Manoel Soares - Agência O Globo, Rogério Lemgruber, Rogério Lemgruber (o "Bagulhão") foi um dos criadores da "Falange Vermelha" e se tornou um dos principais líderes da facção. Quando chegou ao Instituto Penal Cândido Mendes, na Ilha Grande, preso por assalto a banco, já tinha antecedentes por tráfico de drogas.

Um legado de violência

As cadeias brasileiras se transformaram em centros de comando do crime, onde facções se organizam para dominar o tráfico de drogas, regular o convívio entre presos e controlar a violência. Após anos de expansão pelo território brasileiro, tanto o CV quanto o PCC têm integrantes espalhados por presídios de quase todos os estados, segundo levantamento do governo federal, com exceção do Rio Grande do Sul.

Uma trégua entre facções

O Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) mantiveram, da década de 1990 até meados de 2016, uma aliança estratégica conhecida como “paz” no sistema prisional. A ruptura ocorreu no segundo semestre de 2016, em meio a disputas por território, sobretudo nas regiões Norte e Nordeste, estratégicas para o controle de rotas internacionais de cocaína.

Ações policiais e o futuro

Uma das últimas ações da polícia contra facções criminosas foi a megaoperação policial contra o Comando Vermelho realizada no Rio de Janeiro, que deixou mais de 120 mortos, superando o massacre do Carandiru. A operação resultou na apreensão de mais de uma tonelada de drogas e 118 armas.

As consequências da violência continuam a impactar a sociedade brasileira, levantando questões sobre a eficácia das operações policiais e a necessidade de reformas no sistema penitenciário.