Reflexões sobre o Dia Internacional da Mulher
09/03/2026, 12:07:56
Reflexões sobre o Dia Internacional da Mulher
Mais de um século depois, um apelo simples ainda ecoa: permitir que mulheres vivam e amem em paz continua sendo um desafio para a sociedade.
Feliz Dia das Mulheres? Ontem foi dia das mulheres, mas eu não sei se, atualmente, é um dia pra comemorar. Há mais de 100 anos, em 1915, o autor Lima Barreto escreveu isso: "Deixem as mulheres amarem à vontade. Não as matem, pelo amor de Deus." Parece que foi escrito semana passada. O que fazer pras pessoas entenderem algo tão simples? Não batam em mulheres! Aliás, o que fazer pra um conteúdo como um tema tão delicado como esse não ser rotulado simplesmente de lacrador? Impressionante como o feminicídio funciona como uma máquina do tempo. É só entrar no assunto que parece que voltamos pra época medieval.
Durante milênios a humanidade olhou para o feminino e viu algo próximo do divino. Civilizações antigas cultuavam deusas por um motivo simples: o corpo feminino gera vida. E o que aconteceu no meio do caminho? De deusas a vítimas: alguma coisa deu muito errado. É só ler as notícias: Em Natal, uma mulher levou 61 socos do namorado dentro de um elevador, em apenas 34 segundos. Em Brasília, outra mulher também foi espancada dentro de um elevador por quase quatro minutos. No Acre, quatro jogadores de futebol foram presos acusados de estupro coletivo contra duas mulheres dentro do alojamento do time. Em São Paulo, o estado mais rico do país, 2025 registrou o maior número de feminicídios da série histórica: 270 mulheres assassinadas.
Cibelle Monteiro Alves: morta a facadas pelo ex-companheiro dentro do local de trabalho num shopping de São Bernardo. Tainara Souza Santos: atropelada e arrastada por cerca de um quilômetro na Marginal Tietê. Só em 2025 foram mais de 83 mil estupros no Brasil: uma vítima a cada seis minutos. Mais de 70% das vítimas têm menos de 14 anos. No mesmo ano, o país registrou cerca de 1.470 feminicídios. O maior número desde que o crime entrou na legislação. A maioria dessas mortes acontece dentro de casa. Quase sempre pelas mãos de quem jurava amar.
Esses dias, o TJ de Minas Gerais inocentou um homem que vivia como marido de uma menina de 12 anos. Depois voltou atrás. Esse episódio mostra como, muitas vezes, a primeira reação da sociedade é proteger o agressor, não a vítima. Isso revela um fato incômodo: Feminicídio é um problema masculino. Jovens estão se sentindo no direito de tratar mulheres como qualquer coisa. No Rio de Janeiro, uma adolescente de 17 anos foi atraída para um apartamento em Copacabana e sofreu estupro coletivo por quatro jovens, um deles menor de idade.
Mas por que isso continua acontecendo? Eu perguntei pra psicóloga Lala Fonseca qual é o motivo da prática do estupro: "Quando falamos de estupro, muita gente pensa em desejo sexual. Mas, na maioria das vezes, o que está por trás é dominação e poder. São homens que não aprenderam a lidar com limites ou rejeição e usam a violência como forma de afirmar controle. No estupro coletivo entra também a dinâmica de grupo: ninguém quer confrontar o líder ou ser excluído. No fim, a mulher deixa de ser vista como pessoa e passa a ser tratada como objeto de posse."
Resumindo: uma cultura que confunde amor com posse e rejeição com humilhação. Talvez a resposta esteja numa contradição humana. Existe uma contradição curiosa. Muitos homens dizem que a mãe é sagrada. Mas nem sempre tratam com o mesmo respeito a mulher com quem se relacionam. Que, inclusive, pode ser justamente a mãe dos filhos dele como no caso do secretário de Governo de Itumbiara que matou os filhos pra atingir a esposa e mãe deles. Parte dessa diferença talvez esteja no fato de que, nas relações afetivas, entra um elemento que não existe na relação com a mãe: o desejo sexual. O problema começa quando desejo vira sensação de posse.
Uma das soluções está em ensinar à nova geração algo além de dar flores no dia das mulheres: rejeição não é humilhação, e ninguém perde a dignidade porque uma mulher decidiu colocar um limite. O que falta pra gente começar a fazer isso? Talvez a humanidade não precise voltar a tratar mulheres como deusas. Já seria um grande avanço tratá-las como pessoas. E, quem sabe, um dia o pedido do Lima Barreto deixe de ser atual.
Em tempo... Quando eu estava acabando este texto, vi outro caso: Thais Rodrigues Rocha de Oliveira foi assassinada pelo próprio marido e ele enviou um vídeo pras famílias pedindo perdão.
