Rochas plásticas podem marcar nova era geológica
13/03/2026, 09:05:13
Rochas plásticas e sua importância geológica
Estudos indicam que resíduos marinhos podem se integrar a sedimentos naturais e passar a fazer parte dos processos geológicos naturais.
Nas últimas décadas, geólogos de diferentes países têm identificado formações rochosas que contêm um material cada vez mais comum no planeta: o plástico. Desde 2014, esse tipo de rocha já foi registrado em áreas costeiras de países como Portugal, Estados Unidos, Reino Unido, China, Bangladesh, Colômbia, Japão e Brasil. As informações são do jornal da Unesp.
Com essas descobertas, pesquisadores passaram a investigar a formação, a composição e a durabilidade das chamadas "rochas plásticas". Em 2019, a geóloga Fernanda Avelar Santos registrou a primeira ocorrência no Brasil, na ilha de Trindade localizada a mais de mil quilômetros da costa do Espírito Santo. Hoje a pesquisadora investiga como esses fragmentos plásticos se integram aos processos naturais de formação das rochas.
Os impactos do plástico na geologia terrestre
Segundo os estudos de Fernanda, o plástico presente no lixo marinho pode se misturar aos sedimentos da praia e passar a fazer parte do chamado ciclo das rochas, um processo geológico natural. Para muitos geólogos, a presença de fragmentos de plástico incorporados às camadas da Terra pode indicar que o planeta entrou em uma nova época geológica, chamada Antropoceno, marcada pelo forte impacto das atividades humanas no ambiente. A ideia sugere que a ação humana está deixando marcas duradouras no planeta, mas ainda divide a comunidade científica entre defensores e críticos. Por isso, pesquisas como a conduzida pela geóloga Fernanda Avelar Santos ajudam a aprofundar esse debate.
As amostras encontradas na ilha de Trindade se parecem com rochas comuns de regiões costeiras, formadas por areia, fragmentos de conchas e outros sedimentos. No entanto, análises laboratoriais publicadas na revista Marine Pollution Bulletin mostraram que o plástico pode aparecer de diferentes formas nessas estruturas. Em alguns casos, o plástico atua como uma espécie de “cimento”, unindo sedimentos naturais. Em outros, as rochas são formadas principalmente por plástico derretido, com a presença predominante de polietileno e polipropileno, dois tipos de plástico amplamente utilizados pela indústria devido ao baixo custo e à versatilidade.
O que a pesquisa revela sobre a poluição marinha
De acordo com a geóloga, a formação dessas rochas ocorre pela combinação entre o lixo plástico presente no oceano, processos naturais de deposição de sedimentos e, muitas vezes, a queima do material plástico. Apesar de ser uma ilha remota, Trindade recebe grandes quantidades de resíduos trazidos pelas correntes oceânicas. Localizada no caminho de rotas marítimas e dentro do sistema de circulação conhecido como Giro do Atlântico Sul, a região acaba acumulando lixo vindo de várias partes do mundo. “Trata-se de um novo tipo de poluição marinha. Um material geológico aparentemente comum, em que se observa a ocorrência de rochas vulcânicas, areia de praia e materiais biogênicos, mas com a diferença de que tudo isso é cimentado por plástico”, descreve a pesquisadora.
“Ao mesmo tempo em que as rochas plásticas são uma ocorrência nova e interessante, também despertam muita preocupação quanto à quantidade de lixo que produzimos e à forma como o descartamos”, afirma ela.
Análises e descobertas sobre as rochas plásticas
Fernanda Santos também analisou a composição das rochas plásticas usando técnicas como a espectroscopia micro-Raman. Os resultados, publicados na revista Marine Pollution Bulletin, identificaram aditivos e corantes que aumentam a durabilidade do plástico no ambiente. As análises também indicaram que grande parte do material vem de cordas marítimas de polietileno usadas na navegação e na pesca. Segundo a pesquisadora, os resultados são semelhantes aos do primeiro registro desse tipo de formação, realizado pela geóloga Patricia Corcoran em 2014, na praia de Kamilo Beach, no Havaí (EUA). “Ali, as análises também apontaram a predominância de fragmentos dessas cordas cimentadas nos sedimentos. As cordas marítimas são uma grande preocupação ambiental, e há toda uma linha de pesquisa dedicada exclusivamente a elas no campo dos estudos sobre a poluição marinha”, relata ela.
O futuro das rochas plásticas na geologia
Em outra etapa da pesquisa, Santos passou a investigar como os fragmentos dessas rochas plásticas se espalham pelo ambiente. Ao longo de cinco anos de trabalho de campo, a cientista observou que a área onde o fenômeno foi identificado inicialmente diminuiu cerca de 45% devido à erosão. Com o desgaste causado pelo vento, pelas ondas e pelas marés, as rochas se fragmentam e dão origem a partículas classificadas como microplásticos e mesoplásticos, que podem variar de 1 milímetro a 65 milímetros. Parte desses fragmentos permanece próxima ao mar e acaba sendo retrabalhada pelas ondas, adquirindo formas mais arredondadas. Outros são transportados pela areia e podem se acumular em locais inesperados, como no interior de ninhos de tartarugas marinhas. Na Praia das Tartarugas, na ilha de Trindade, a pesquisadora encontrou fragmentos plásticos enterrados a até 10 centímetros de profundidade em áreas onde as tartarugas-verdes depositam seus ovos.
Em 2025, Fernanda Santos iniciou uma nova fase da pesquisa no Canadá, em parceria com o grupo da geóloga Patricia Corcoran, da Western University, pioneira no estudo das rochas plásticas. O objetivo é investigar se essas formações podem permanecer preservadas por tempo suficiente para se tornarem registros nas camadas profundas da Terra. Para isso, as cientistas utilizam câmaras especiais que simulam o envelhecimento do material por meio da exposição severa à radiação ultravioleta, umidade, calor, entre outros elementos climáticos. “Durante o último ano, nós simulamos o clima de ilhas oceânicas sobre as amostras provenientes das ilhas da Trindade, Fernando de Noronha e do Havaí. Queremos simular o que acontece com essas rochas ao longo do tempo na superfície e em grandes profundidades da Terra”, destaca.
Se esses fragmentos se preservarem nas camadas do solo, eles poderão se tornar uma marca geológica da presença humana no planeta. Essa possibilidade é um dos argumentos usados por cientistas que defendem que já entramos no Antropoceno. “Do ponto de vista de uma geóloga que, nos últimos anos, esteve indo a campo e viu plásticos se incorporarem ao processo geológico, o Antropoceno já está aí”, afirma a geóloga.
