Migalhas de pão se tornam combustível sustentável

Migalhas de pão se tornam combustível sustentável

Migalhas de pão se tornam combustível sustentável

Pesquisadores relataram que conseguiram transformar migalhas de pão em hidrogênio, um tipo de combustível, por meio de um processo que combina bactérias e um metal catalisador. O estudo, publicado na revista Nature Chemistry, mostra que o processo usa restos de alimentos para gerar energia e pode substituir métodos tradicionais baseados em combustíveis fósseis, com potencial de reduzir significativamente as emissões de gases do efeito estufa. A técnica une microrganismos vivos e um metal chamado paládio. As bactérias, como a Escherichia coli (E. coli), produzem hidrogênio naturalmente quando ficam sem oxigênio. O gás, ao entrar em contato com o metal, passa por uma reação química chamada hidrogenação, que é amplamente usada na indústria. O professor responsável comentou o método em entrevista à Live Science. "O principal desafio foi encontrar um catalisador que pudesse operar em um sistema vivo - em água, a temperaturas amenas e sem prejudicar as células" Stephen Wallace, professor de biotecnologia química. No experimento, os cientistas cultivaram bactérias em um ambiente controlado e adicionaram o catalisador. O resultado foi uma reação eficiente, com até 94% de aproveitamento na produção de compostos químicos.

De lixo à fonte de energia

Para tornar o processo mais sustentável, os pesquisadores substituíram o açúcar puro por restos de pão. As migalhas foram quebradas por enzimas até virar glicose, que serviu de “alimento” para as bactérias. A partir daí, elas produziram hidrogênio, transformando o resíduo em combustível. Segundo o estudo, esse tipo de reaproveitamento é relevante porque o desperdício de pão é alto. Apenas no Reino Unido, cerca de 900 mil toneladas são descartadas por ano, muitas vezes em aterros ou incineração, o que gera emissões de carbono. A hidrogenação é uma reação essencial em diversos setores, como produção de alimentos, plásticos e medicamentos. Hoje, a maior parte do hidrogênio usado vem de combustíveis fósseis, por meio de um processo poluente que pode emitir entre 15 e 20 quilos de dióxido de carbono para cada quilo de hidrogênio produzido. Com a nova técnica, esse cenário pode mudar. Os testes indicam que o uso de hidrogênio gerado por bactérias pode reduzir as emissões em até três vezes. Quando o processo utiliza resíduos de pão, o impacto ambiental pode ser ainda menor, chegando a um resultado considerado “carbono negativo”, ou seja, retirando mais carbono do que emite.

Próximos passos

Apesar dos resultados, os próprios autores destacam que a técnica ainda não é tão eficiente quanto os processos industriais atuais. O objetivo agora é aumentar a escala, melhorar o rendimento e adaptar o método para diferentes tipos de resíduos. "Para torná-lo viável, precisamos melhorar a eficiência e desenvolver catalisadores que sejam estáveis em escala industrial." Stephen Wallace, professor de biotecnologia química. A pesquisa também aponta que sistemas híbridos, que combinam química e biologia, podem ser uma alternativa para reduzir a dependência de combustíveis fósseis e tornar a indústria mais sustentável.