Cessar-fogo no Irã e Líbano é essencial hoje

Cessar-fogo no Irã e Líbano é essencial hoje

Os dois países precisam urgentemente de um cessar-fogo, mas não estão dispostos a pagar seu preço.

As negociações em curso entre Estados Unidos e Irã — que também englobam a posição israelense — estão na mesma distância da espaçonave Artemis II à Terra. A diferença é que a Artemis II está se aproximando daqui. Essa imagem foi criada por um analista israelense para descrever o abismo que separa as expectativas americanas das iranianas quanto ao encerramento do conflito atual.

Quanto a nós, terráqueos que observamos o jogo militar e diplomático aqui de baixo, vemos um céu absolutamente nebuloso. Não fazemos ideia do que está a acontecer nem do que esperar. Alguns acreditam que Donald Trump está dando uma aula de estratégia (mesmo que brutal) como nunca se viu. Outros, que ele está despreparado para o braço de ferro imposto pelo regime iraniano.

A mídia internacional, que, desde o início desse conflito, tornou-se parte de uma espécie de torcida organizada, dividida entre “contra ou a favor desse ou daquele” — o que torna impossível obter dela informações que permitam acompanhar o desenrolar dos fatos —, agora está verdadeiramente perdida.

Desinformação em ritmo total. Num dia, Trump noticia que o Estreito de Ormuz está aberto; no outro, o regime iraniano afirma que continua fechado. Surge a notícia de que os iranianos concordaram em entregar 450 quilos de urânio enriquecido aos Estados Unidos — depois, disse-se que seria ao Paquistão. Dois dias depois, a informação foi desmentida.

Analistas dizem que Trump lança palavras vazias ao vento. Comentaristas afirmam que os líderes iranianos simplesmente não podem assumir publicamente nenhum compromisso com o inimigo. E a gente, aqui, continua sem fazer ideia do que está acontecendo. Para variar.

Não é possível entender o que acontece no presente — que dirá o futuro. No entanto, é possível olhar o tabuleiro atual e perceber que o Irã não é mais o que era. Ou, mais ainda, não é quem pareceu ser. Pelo menos isso.

O tigre de papel. Cada vez mais analistas recorrem ao termo “tigre de papel” para descrever o regime islâmico, que atravessa sua pior crise histórica desde a tomada do poder em 1979. E nunca foi tão nítida a distância entre o que é o povo iraniano e o que é o governo que o oprime e mata. Os aiatolás também estão se desconectando de suas redes de proxies por motivos distintos. O “círculo de fogo” construído ao redor de Israel está se apagando.

Impossível negar que estes mais de 900 dias de guerra serviram para expor ao mundo o perigo representado pela ideologia fundamentalista islâmica. Ainda assim, vários países — o Brasil entre eles — seguem posicionando-se com uma neutralidade perigosa em relação ao regime iraniano. Como se não bastasse, estamos acompanhando o sinistro aumento do ritmo de execuções de manifestantes iranianos presos durante os vários protestos civis realizados nos últimos anos contra o governo. Não é difícil entender por quê: o regime enfrenta, neste momento, um inimigo externo — Estados Unidos e Israel — e teme pelo fortalecimento inexorável do seu 'inimigo interno', a própria população.

Há algo profundamente perturbador em um governo que trata como inimiga uma grande parcela de sua população. Esse é um filme que ditaduras latino-americanas (e outras) assistiram várias vezes, o que torna espantoso o silêncio desses países diante das arbitrariedades do regime islâmico.

O mesmo raciocínio, com variações, aplica-se ao Líbano. Ali, as negociações de cessar-fogo ocorrem entre Israel e o governo libanês sob o braço duro dos EUA. No entanto, esse governo não tem, de fato, condições de enfrentar seu próprio inimigo interno, embora precise aparentar que sim.

O Hezbollah, hospedeiro cancerígeno do Líbano, arrastou o país para várias guerras, inclusive a atual, e representa uma ameaça não apenas à estabilidade do governo, mas também à sua existência como Estado soberano. A milícia sabe disso e usa essa realidade como instrumento: a ameaça permanente de uma guerra civil — mais uma — serve para paralisar e fragilizar qualquer iniciativa do governo libanês que contrarie seus interesses.

O resultado dessa conjuntura é um país refém, que há muito deixou de ser uma nação independente para se tornar uma estação avançada do Irã na fronteira com Israel — plataforma de projeção militar, de financiamento e de influência do regime de Teerã. Reconhecer isso é o ponto de partida para qualquer análise séria sobre as chances de um cessar-fogo duradouro.

No entanto, essa é precisamente a realidade que uma parte significativa da comunidade internacional se recusa a enxergar. França e Brasil, por caminhos distintos, mas com conclusões semelhantes, insistem em tratar o Líbano como um ator autônomo, capaz de negociar e honrar compromissos por conta própria. É uma ilusão que tem um custo — e quem paga, invariavelmente, é a população libanesa.

O cessar-fogo faz sentido quando as partes entendem o preço a pagar para pôr fim ao conflito. Nada do que se vê nas negociações em curso sugere que isso esteja ocorrendo. O que se vê, por ora, são palavras soltas ao vento.