Choradeira pelo fim da 6x1 e o impacto na economia

Choradeira pelo fim da 6x1 e o impacto na economia

Choradeira pelo fim da 6x1 e o impacto na economia


A cada novo avanço, tocam as trombetas do apocalipse dos bem nascidos sobre o risco de "quebradeira" da economia. Que não se confirma desde 1888.


“A economia vai quebrar”. “A produção agrícola vai colapsar”. “O país perderá competitividade internacional”. Sentenças do tipo podiam ser ouvidas entre escravocratas quando foi instituída a Lei Áurea, dispositivo que colocou fim a mais de 300 anos de escravidão no Brasil, em 1888. O fim do mundo anunciado naquela e tantas outras vezes não aconteceu. O Brasil entrou num processo de transição para trabalho assalariado (aos solavancos, exclusão de pessoas recém-libertas e substituídas por mão-de-obra imigrante, é verdade). Aqui e ali houve dificuldades e reacomodações, especialmente no campo, mas a economia se diversificou. E não colapsou.


As trombetas do apocalipse voltaram a soar em outros momentos da história, como a entrada das mulheres no mercado de trabalho, ao longo do século XX. Muitos diziam (ainda dizem) que a mudança tiraria empregos dos homens, reduziria salários gerais e desorganizaria a família e a economia. Na verdade, o que aconteceu foi o oposto: a participação feminina aumentou o tamanho da força de trabalho e da economia, contribuiu para o crescimento do PIB e para o aumento da renda familiar. Não houve “substituição massiva” de homens – nem aqui nem em qualquer outro país.


Em 1943, com a Consolidação das Leis do Trabalho, os donos do dinheiro previram o caos: economia engessada, aumento do custo do trabalho, desemprego e informalidade. O fato é que, com direitos trabalhistas garantidos, a industrialização brasileira acelerou nas décadas seguintes e o mercado formal cresceu – recuando por razões paralelas e estruturais anos depois. Quando foi promulgada a Constituição de 1988, representantes patronais criticaram a natureza “gastadora” da Carta, que inviabilizaria o Estado, travaria a economia e geraria crise fiscal às custas de direitos sociais. O que aconteceu? Expansão do consumo e redução de desigualdade.


A mesma lógica se repetiu com o surgimento do Bolsa Família, nos anos 2000. “Vai desestimular o trabalho”, “vai criar dependência”, “as pessoas vão parar de trabalhar” eram algumas das frases ouvidas por grandes empregadores e por aquele tio que pagava salário de fome para os dois empregados do mercadinho da família. Estudos do Banco Mundial e do Ipea, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, mostraram que as trombetas, de novo, estavam erradas. Não houve redução relevante na oferta de trabalho. O que houve foi uma queda significativa da pobreza, com melhora em indicadores de educação e saúde em razão dos condicionantes para as famílias acessarem o benefício, como ter vacinação em dia e filhos matriculados na escola.


No fim das contas, o programa aumentou a capacidade de inserção produtiva – é mais fácil buscar capacitação de barriga cheia do que ao fim de um dia lutando para ter o que comer e sobreviver. Mais recentemente, os mesmos agentes se uniram para gritar contra a chamada “MP das Domésticas”, instituída na primeira metade dos anos 2010. De fato, houve inicialmente uma queda no número de profissionais formais, que migraram para a informalidade e se tornaram diaristas. Mas não houve a extinção propalada e a formalização voltou a crescer gradualmente ao longo dos anos.


Outros avanços sociais também causaram reações no patronato: Lei do 13º salário (1962), criação do FGTS (1966), valorização do salário mínimo e até o Estatuto da Criança e do Adolescente, em 1990. Sim, até direito da criança já foi alvo de previsões tenebrosas. O que aconteceria com a economia, afinal, se ela inviabilizasse as atividades que usavam mão de obra jovem? Isso mesmo, nada.


De umas semanas para cá, o debate, no Congresso, sobre o fim da escala 6x1 levou os profetas do Apocalipse a evocar as figuras dos avôs escravocratas. A ladainha é a mesma de sempre: aumento do custo de operação, redução da produtividade, demissões, informalidade, etc. As frases não fazem sentido quando diante de evidências coletadas por países que já fizeram a transição. Um trabalhador descansado tende a produzir mais se tiver garantidos seus dias de descanso. E é isso que precisa ser levado em conta pelos integrantes da comissão especial que vai tratar do tema na Câmara nos próximos dias. A Comissão de Constituição e Justiça já deu sinal verde para avanço, nesta quarta-feira (22), por unanimidade. A choradeira não tem hora pra acabar.


Nessas horas vale ouvir especialistas como o sociólogo Ricardo Antunes, para quem a luta contra a jornada 6x1 é “uma das mais importantes do nosso tempo” porque recoloca no centro o debate a relação entre “tempo de vida” e “tempo de trabalho”. Ele lembra que a tecnologia deste século aumentou a produtividade das empresas, mas esse ganho não foi revertido em menos trabalho. Ao contrário, intensificou ritmo, pressão e adoecimento. Para ele, o fim da 6x1 tende a garantir, para os trabalhadores, mais vida social e mais acesso à cultura – o que resulta em relações afetivas e familiares também mais enriquecidas e sem ter na conta itens básicos do trabalho contemporâneo, como exaustão, burnout e depressão.


Por isso, como diz o especialista, esta luta não é só econômica, mas civilizatória. É a mesma luta que nos fez chegar até aqui desde o fim da escravidão.