Gorilas cantando impressionam cientistas com novas descobertas
03/05/2026, 05:04:30
Gorilas cantando impressionam cientistas com novas descobertas
Pesquisas revelam sons ritmados, vocalizações emocionais e comportamentos que podem explicar a origem da música humana
A ideia de um gorila “cantando” pode parecer cena de filme infantil ou animação da Disney. Mas a ciência descobriu que a realidade é muito mais curiosa. Pesquisadores de diferentes países vêm investigando há anos os sons produzidos por gorilas e outros grandes primatas, e alguns estudos mostram que esses animais realmente emitem vocalizações ritmadas e melodiosas em determinadas situações. As informações são da Nature on PBS.
Embora especialistas deixem claro que os gorilas não cantam como seres humanos, várias pesquisas apontam que eles produzem sons organizados, repetitivos e até com variações de tom. Para muitos cientistas, esses comportamentos podem representar pistas importantes sobre as origens da música, da fala e até da comunicação humana.
Um dos estudos mais famosos sobre o tema foi publicado na revista científica PLOS ONE e analisou ritmos vocais de orangotangos, mostrando padrões muito parecidos com a estrutura da fala humana. Outra pesquisa, divulgada pela revista Scientific Reports, revelou que orangotangos conseguem controlar sons vocais de maneira voluntária, algo considerado essencial para o surgimento da fala.
Mas os gorilas também entraram nessa discussão científica. Pesquisadores estudando gorilas-da-planície-ocidental descobriram que eles produzem vocalizações conhecidas como “humming” e “singing” durante a alimentação. Em português, os sons foram descritos como algo parecido com “zumbidos” e “cantorias”. O estudo chamou atenção porque os sons não eram aleatórios. Eles apareciam principalmente quando os animais estavam satisfeitos enquanto comiam alimentos preferidos, funcionando quase como uma expressão emocional.
Segundo os pesquisadores, o “humming” é um som contínuo e grave, enquanto o “singing” apresenta pequenas mudanças de tom e sequência de notas. Os cientistas observaram que os gorilas faziam essas vocalizações especialmente durante refeições tranquilas, sugerindo que os sons podem ajudar na interação social do grupo. Em outras palavras: os gorilas parecem “cantarolar” quando estão confortáveis.
Essa descoberta foi considerada importante porque mostra que a comunicação dos grandes primatas é muito mais complexa do que se imaginava décadas atrás.
Sons dos gorilas que lembram música
Nos últimos anos, pesquisadores passaram a estudar não apenas os sons produzidos pelos primatas, mas também o ritmo desses comportamentos. Em 2025, um estudo publicado na revista Current Biology revelou que chimpanzés produzem batidas ritmadas em árvores de forma organizada, com padrões que lembram elementos básicos da música humana. Os pesquisadores descobriram que os chimpanzés mantinham intervalos regulares entre as batidas, algo considerado fundamental para a existência de ritmo musical.
Já outra pesquisa mais recente, publicada na revista iScience, analisou os chamados longos dos orangotangos selvagens e encontrou padrões de ritmo considerados extremamente sofisticados. Os cientistas afirmaram que esses sons apresentam estruturas semelhantes ao chamado “double meter”, muito comum em músicas humanas. Isso não significa que os orangotangos estejam compondo canções, mas indica que alguns elementos fundamentais da musicalidade podem existir há milhões de anos entre os grandes primatas.
Gorilas criam sons inéditos para falar com humanos
Outra descoberta surpreendente veio do Zoológico Atlanta, nos Estados Unidos. Pesquisadores relataram que gorilas desenvolveram sons específicos para chamar a atenção de tratadores humanos, principalmente quando havia comida envolvida. Segundo os cientistas, essas vocalizações não eram comuns entre gorilas selvagens e pareciam ter sido criadas no ambiente do zoológico como forma de comunicação adaptada aos humanos. A descoberta reforçou a ideia de que os grandes primatas possuem flexibilidade vocal muito maior do que os pesquisadores acreditavam no passado.
A ligação entre música e evolução dos humanos
Especialistas acreditam que estudar os sons dos primatas pode ajudar a responder uma pergunta antiga: como surgiu a música humana? O ritmo está presente em praticamente todas as culturas do planeta. Batidas, melodias e repetições aparecem em rituais religiosos, festas, cerimônias e até no modo como as pessoas conversam. Por isso, muitos pesquisadores tentam descobrir se o cérebro humano desenvolveu essa habilidade sozinho ou se herdou parte dela de ancestrais primitivos.
Os estudos com gorilas, chimpanzés e orangotangos indicam que talvez exista uma origem evolutiva muito antiga para o ritmo e para certas formas de musicalidade. A professora Catherine Hobaiter, da Universidade de St Andrews, afirmou em entrevista ao jornal The Guardian que os “blocos fundamentais do ritmo” provavelmente já existiam no ancestral comum entre humanos e chimpanzés há cerca de 6 ou 7 milhões de anos. Isso ajuda a explicar por que seres humanos têm uma ligação tão natural com música e batidas rítmicas desde a infância.
Os gorilas realmente cantam?
A resposta curta é: depende da definição de “cantar”. Se a palavra for usada no sentido humano, com melodia organizada e intenção artística, a resposta é não. Não há evidências de que gorilas componham músicas como pessoas. Mas se cantar significar produzir vocalizações ritmadas, emocionais e organizadas em padrões específicos, então vários cientistas acreditam que sim, pelo menos em um nível primitivo.
O mais impressionante é que os estudos mostram que essas vocalizações não servem apenas para sobrevivência. Em muitos casos, os sons parecem estar ligados a prazer, interação social e estados emocionais positivos. Isso aproxima ainda mais os grandes primatas dos seres humanos.
As semelhanças entre humanos e grandes primatas vão muito além do “canto”. Pesquisas anteriores já mostraram que chimpanzés, bonobos, orangotangos e gorilas produzem sons parecidos com risadas durante brincadeiras e cócegas. Os cientistas descobriram inclusive que essas vocalizações seguem padrões evolutivos compatíveis com a árvore genética dos primatas. Ou seja: a risada humana provavelmente surgiu de sons emocionais ancestrais compartilhados com outros grandes primatas.
Além disso, estudos recentes apontam que chimpanzés possuem “assinaturas vocais”, quase como uma espécie de impressão digital sonora. Tudo isso reforça a ideia de que comunicação, emoção e ritmo estão profundamente conectados na evolução dos primatas.
Apesar dos avanços, pesquisadores afirmam que ainda sabemos muito pouco sobre a complexidade vocal dos grandes primatas. Com novas tecnologias de inteligência artificial e análise sonora, cientistas conseguem hoje estudar milhares de gravações feitas em florestas africanas e asiáticas. Esses sistemas ajudam a identificar padrões que passavam despercebidos no passado. A expectativa é que os próximos anos tragam descobertas ainda mais impressionantes sobre como gorilas, chimpanzés e orangotangos usam sons para interagir. Para muitos pesquisadores, compreender essas vocalizações também pode ajudar na conservação dessas espécies ameaçadas de extinção.
Enquanto isso, uma coisa já parece clara: os gorilas talvez não cantem músicas como nós, mas definitivamente são muito mais musicais do que a humanidade imaginava.
