Consumo de ultraprocessados aumenta risco de demência em dietas saudáveis

Consumo de ultraprocessados aumenta risco de demência em dietas saudáveis

Consumo de ultraprocessados e o risco de demência

Um estudo da Monash University revela que o consumo de ultraprocessados pode aumentar o risco de demência, mesmo em dietas consideradas saudáveis, como a mediterrânea. Analisando mais de 2 mil australianos, a pesquisa mostra que cada aumento de 10% na ingestão desses alimentos está ligado a piora cognitiva. Embora não estabeleça causa direta, o estudo sugere que o processamento industrial pode ser um fator chave.

O aumento no consumo diário de alimentos ultraprocessados pode elevar o risco de demência mesmo entre pessoas que mantêm dietas ricas em vegetais e consideradas saudáveis. A conclusão é de um estudo publicado na revista científica “Alzheimer’s & Dementia: Diagnosis, Assessment & Disease Monitoring”, que identificou associação entre maior ingestão desses produtos e pior desempenho cognitivo em adultos de meia-idade e idosos.

A pesquisa foi conduzida por cientistas da Monash University, na Austrália, e analisou mais de 2,1 mil pessoas entre 40 e 70 anos. Os participantes preencheram registros alimentares sobre seus hábitos ao longo de um ano e passaram por testes cognitivos para avaliar atenção, velocidade de processamento de informações e risco futuro de demência.

Segundo os pesquisadores, cada aumento de 10% no consumo de ultraprocessados — o equivalente aproximado a um pequeno pacote de batatas fritas industrializadas por dia — esteve associado a uma piora mensurável na capacidade de concentração e a uma elevação no risco estimado de demência ao longo dos anos seguintes.

— Nosso estudo mostrou que o consumo de ultraprocessados esteve associado a pior atenção e maior risco de demência em adultos de meia-idade e idosos — afirmou a pesquisadora Barbara Cardoso, autora principal do estudo.

Os pesquisadores ressaltam que o trabalho identificou uma associação estatística, e não uma relação direta de causa e efeito. Ainda assim, os resultados chamaram atenção porque o aumento do risco permaneceu mesmo entre participantes que seguiam padrões alimentares considerados benéficos, como a dieta mediterrânea.

De acordo com Cardoso, isso sugere que o problema pode estar ligado ao nível de processamento industrial dos alimentos, e não apenas à substituição de itens saudáveis por produtos menos nutritivos.

Dietas saudáveis não anulam o impacto dos ultraprocessados

A dieta mediterrânea, frequentemente associada à redução de riscos cardiovasculares e neurodegenerativos, prioriza alimentos in natura, como frutas, verduras, azeite de oliva, castanhas, sementes e grãos integrais. Outros padrões alimentares, como as dietas DASH e MIND, também estimulam o consumo de alimentos frescos e limitam produtos industrializados.

Os ultraprocessados, porém, costumam conter poucos ingredientes naturais. Em geral, são produzidos a partir de substâncias extraídas de alimentos ou sintetizadas industrialmente, com adição de corantes, aromatizantes, emulsificantes e grandes quantidades de açúcar, gordura e sal.

Segundo especialistas, esse tipo de produto pode carecer de nutrientes importantes para o funcionamento adequado do cérebro e do organismo.

O neurologista W. Taylor Kimberly, da Harvard Medical School, que não participou da pesquisa, classificou o estudo como mais uma evidência relevante sobre os impactos negativos dos ultraprocessados na saúde cerebral.

Kimberly foi autor de uma pesquisa semelhante publicada em janeiro, na qual um aumento de 10% no consumo desses alimentos esteve relacionado a um risco 16% maior de comprometimento cognitivo, mesmo em pessoas que mantinham alimentação predominantemente vegetal.

— Em conjunto, esses estudos mostram de forma consistente que maiores níveis de consumo de ultraprocessados estão associados a pior desempenho cognitivo — declarou.

O pesquisador destacou, porém, que a redução do consumo desses alimentos pode trazer benefícios a longo prazo. Segundo ele, substituir ultraprocessados por alimentos minimamente processados ao longo de cinco a seis anos esteve associado a uma redução de 12% no risco de declínio cognitivo.

Impactos vão além do cérebro

O novo estudo também reforça uma série de pesquisas recentes que relacionam ultraprocessados a diferentes problemas de saúde. Uma revisão publicada em fevereiro de 2024, reunindo dados de cerca de 10 milhões de pessoas em 45 estudos, apontou que o aumento de 10% na ingestão desses produtos esteve ligado a maior risco de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, obesidade, distúrbios do sono e depressão.

Na pesquisa australiana, os participantes não apresentavam demência no início do acompanhamento. Ainda assim, os testes mostraram que o aumento no consumo de ultraprocessados esteve relacionado à piora da atenção visual e da velocidade de processamento mental — capacidades consideradas fundamentais para aprendizado, raciocínio e resolução de problemas.

Os cientistas também utilizaram uma escala validada que estima o risco de demência ao longo de 20 anos. Segundo os resultados, cada aumento de 10% no consumo diário desses alimentos esteve associado a um acréscimo de 0,24 ponto na escala de risco, que varia de 0 a 7.

Os autores alertam que hábitos aparentemente comuns podem elevar rapidamente esse consumo, como ingerir panquecas industrializadas no café da manhã, salgadinhos no almoço, biscoitos embalados nos lanches e pizza congelada no jantar.

— A meia-idade representa uma oportunidade importante para agir sobre fatores de risco modificáveis antes que alterações neurológicas compatíveis com a demência se desenvolvam — afirmou Cardoso.

Segundo a pesquisadora, os ultraprocessados já foram associados a alterações no sistema endócrino, na microbiota intestinal e a fatores cardiovasculares ligados à demência, como hipertensão, obesidade, diabetes e colesterol elevado.