Como os 50 tons de cinza impactam a saúde mental

Como os 50 tons de cinza impactam a saúde mental

Os desafios da saúde mental na atualidade

A ausência de diagnóstico psíquico nem sempre representa como vivemos e as dinâmicas da mente.

Caro leitor, como anda a sua saúde mental? Eu não estou perguntando se você tem depressão, ansiedade ou qualquer diagnóstico psiquiátrico. A minha pergunta é outra: como você se sente, por dentro?

Durante muito tempo, saúde mental significava não ter uma doença mental. Era uma maneira binária de olhar o tema: ou a pessoa era “normal” ou era “louca”. E a psiquiatria trabalhava em torno desse eixo: diagnosticar e tratar.

Hoje, isso não se sustenta mais. Alguém pode ter um transtorno mental e, ainda assim, viver com qualidade e propósito. E alguém pode nunca ter recebido um diagnóstico e viver muito mal.

Entre esses dois polos, existe um enorme território cinza. É nele que a maioria de nós vive, oscilando entre humores e estados de espírito (inclusive eu). Você pode não ter um transtorno mental, mas dormir mal há meses. Pode ter percebido que, ao longo da vida, não conseguiu construir vínculos fortes e de qualidade. Pode estar bebendo mais do que gostaria porque se sente frustrado. Pode estar desanimado com o futuro do planeta ao ponto de perder o entusiasmo em viver. Pode sentir um cansaço que não se resolve com descanso. Isso é sinal de que você tem alguma doença mental? Não necessariamente, mas também não é exatamente saúde.

O papel da sociedade e das redes sociais

Como médico, fui treinado para identificar doenças. Durante décadas, foi esse o meu trabalho: avaliar, diagnosticar, tratar. E isso é necessário. Transtornos mentais existem, podem ser graves e exigem cuidado atento.

Mas a vida real, essa que acontece na rua, em casa, no trabalho, na roda de amigos, não cabe tão bem nesses enquadramentos.

A maioria das pessoas que eu conheço — e aqui faço uma confissão profissional — tem algum tipo de dificuldade emocional, comportamental ou relacional. Todas? Provavelmente não. Mas significa o quanto o nosso mundo interno é menos estável e mais complicado do que gostamos de imaginar.

E isso não acontece por acaso. Vivemos sob excesso de estímulos, de cobrança, de comparação. Parte disso passa pelas redes sociais. Nunca se exibiu tanto uma vida sem falhas: corpos perfeitos moldados na academia, viagens a lugares paradisíacos, rotinas de trabalho que parecem livres de conflitos.

O problema não são as imagens, mas a comparação inevitável que elas provocam. Quem está do outro lado compara e quase sempre perde. A vida real — aquela que acontece fora das telas — inclui erros, frustrações, relações imperfeitas e dias ruins que não são publicados. Isso cria um espaço entre o que de fato vivemos e o que achamos que deveríamos viver. E essa distância cobra um preço.

Reflexão sobre saúde mental

Muitas vezes, esse preço não aparece como doença, mas como uma sensação de mal-estar, de nunca ser suficiente, mesmo quando a vida está caminhando. Por isso, talvez a pergunta mais honesta seja a que fiz no início: como você está lidando com a sua vida? Como você realmente está, por dentro?

Saúde mental, hoje, tem menos a ver com ausência de diagnóstico e mais com conseguir lidar com a própria vida de forma razoavelmente boa. É conseguir regular emoções, sustentar vínculos, encontrar algum sentido, cuidar minimamente de si, mesmo em um contexto que frequentemente nos empurra na direção oposta.

Isso significa que todos estamos um pouco doentes? Não, mas significa reconhecer algo desconfortável: na prática, a ideia de uma saúde mental perfeita e estável é uma ficção. Sabe a frase “de perto, ninguém é normal”? Ela é famosa porque mostra que, quando a lente chega perto, revela nossas fragilidades: ninguém é totalmente estável ou está o tempo todo em paz.

Viver em algum ponto desse território cinza, no entanto, não significa viver mal. É a condição para viver uma vida real. O problema não está no cinza, mas na expectativa de que a vida deveria ser preta ou branca.