Estrelas do Pop Elevam o Reggae no Brasil em 2026
12/05/2026, 03:14:03
"Caos e sal / Tão bonito", de Iza; "Deus existe", de Anitta em parceria com Ponto de Equilíbrio; e "Combo da Sorte", de Marina Sena, têm algo em comum. As três são músicas de grandes estrelas brasileiras da música pop atual e que apontam para um novo bom momento do reggae no Brasil.
Nesta segunda-feira (11), é celebrado o Dia Nacional do Reggae. O gênero musical aparece como o penúltimo tipo de música preferida dos brasileiros segundo dados de um estudo inédito da Globo em parceria com a Quaest. De acordo com o ranking, ele só perde para o pop internacional.
As músicas citadas acima comprovam que o estilo pode estar voltando a ficar em evidência. O uso da influência jamaicana em outros gêneros musicais não é uma novidade no país. Contudo, o fato de vários artistas de estilos mais populares estarem usando o reggae como referência em suas músicas em uma mesma época aponta para uma tendência.
As três artistas mencionadas não são as únicas a utilizar as batidas jamaicanas em seus projetos. Em 2025, MC Cabelinho lançou a faixa "Rastafari". Além disso, canções do bem-sucedido projeto "Dominguinho" (como "Ligação estranha" e "Dois Mundos", que integram o segundo volume do trio) são mais alguns exemplos.
"Estou achando isso muito louco. Às vezes a gente se pergunta se os conteúdos que estamos vendo estão ali por causa da nossa bolha. Mas não. Está todo mundo se voltando para essa história maravilhosa que é o reggae no nosso país, que se veste de outras formas, como o Olodum, como o xote e várias outras vertentes. Fico muito feliz que está todo mundo muito ligado no reggae", afirmou Iza em uma entrevista recente ao g1 ao falar sobre o momento de valorização do reggae nacional. A artista planeja um álbum todo voltado para o gênero.
Guilherme Guedes, jornalista e apresentador do Multishow, analisa: "A música é cíclica. As coisas vêm em ondas, desaparecem por um tempo e, aí, ressurgem. O reggae e toda a música jamaicana têm uma influência enorme na música brasileira. Porque da cultura jamaicana, vem o lance dos paredões, que é muito forte aqui no Brasil. E tem uma série de gêneros e subgêneros da música eletrônica que hoje estão muito em voga, que também têm uma influência direta da cultura jamaicana".
Para Guilherme, "acho que a gente tem vivido esse momento também da música que busca uma conexão, uma sonoridade mais orgânica ou uma conexão mais espiritual em alguns casos, e que tem uma conexão direta com o reggae".
Juliana Beydoun, produtora executiva da banda Tribo de Jah, que celebra 40 anos de carreira, vê de forma positiva o flerte de grandes artistas do pop com o reggae: "Isso mostra a força e a relevância que o reggae continua tendo dentro da música brasileira e como ele segue alcançando novas gerações e públicos diferentes".
Entre essa nova geração de artistas, muitos já estão surgindo e outros segmentos estão dialogando com essa sonoridade, o que reforça que o reggae continua vivo, relevante e com um público muito fiel consumindo o ritmo.
Por falar em público fiel, muitos fãs do gênero protestaram nas redes sociais da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa, na última semana, após a divulgação de um cartaz com o anúncio de algumas das atrações da Virada Cultural 2026. No texto, não havia nenhum nome do reggae, o que fez o público questionar a presença do gênero na festa que acontece nos dias 23 e 24 de maio, em São Paulo. A secretaria se manifestou e informou que, no site do evento, é possível encontrar a programação completa, que conta com nomes do gênero como Mato Seco, Quinta Rasta, Radiola Reggae, além do artista franco-espanhol Manu Chao.
Falta um grande hit? Para Guilherme Guedes, o que talvez falte para consolidar este atual bom momento do reggae no Brasil seja um hit ou uma música que marque essa geração: "[Falta] uma música que estoure. Um reggae feito aqui no Brasil, seja por quem for, que entre para as paradas e de fato consolide esse momento".
Guilherme analisa: "Mas acho que, da mesma forma que a gente viu nos anos 1990, vários artistas despontando, como Edson Gomes, Cidade Negra e Natiruts, -- ou até outros artistas com influência do reggae, como o Rappa -- a gente tá vendo agora um novo momento entre artistas já consolidados explorando a sonoridade do reggae".
A presença de um hit seria importantíssima para selar a nova fase e dar visibilidade ao gênero, que está longe de aparecer entre as músicas mais tocadas nas rádios e plataformas digitais. Anteriormente dominado pelo sertanejo, os rankings atualmente estão com o funk compondo as primeiras posições. Na última semana, a faixa mais tocada de reggae aparecia somente na 134ª posição. A música era "Tudo vai dar certo", do Natiruts, banda que surpreendeu muita gente ao lotar estádios e arenas em sua turnê de despedida entre 2024 e 2025.
A ausência do estilo no mainstream não diminuiu a força e a influência do reggae na música brasileira. Isso vai de encontro com uma das frases de Bob Marley: "reggae não é twist", defendendo que o gênero não é focado em ser dançante, mas em trazer uma mensagem.
Com o tempo, ao atingir o sucesso comercial, o gênero acaba ganhando outros desenhos e perdendo um pouco de suas características. Isto já ocorreu com outros gêneros ou bandas de natureza mais questionadora. Guilherme relembra: "Foi o que aconteceu, por exemplo, com o Nirvana, que era algo que fazia o Kurt Cobain sofrer muito. Porque quando o Nirvana fez o sucesso comercial lá com o álbum de 1991, o Kurt começou a ver na plateia dos shows justamente as pessoas e os comportamentos que ele mais desprezava e criticava nas músicas. Mas as pessoas estavam ali só pelo som". O mesmo ocorre com o reggae: "Porque às vezes tem uma mensagem política, uma mensagem social mais impactante, mais forte nas letras. Mas a partir do momento que o som se massifica e as pessoas estão ali mais pela vibe, pelo som tranquilo, pela harmonia entre os instrumentos, isso acaba perdendo a essência". Assim como, quando um gênero se massifica, ele por vezes perde sua essência, tornando-se apenas uma estética.
A boa fase ainda fortalece os nomes já consolidados do gênero e que não perderam essa essência. Um dos maiores marcos deste momento foi o convite para Edson Gomes se apresentar no Lollapalooza 2026. Apesar do show do cantor ter sido ofuscado pelo de Sabrina Carpenter, que se apresentou no mesmo horário, a presença de fãs fiéis foi notável.
Se a expectativa do público de Edson no Lolla era enorme, o Natiruts surpreendeu ao lotar estádios e arenas com seus shows de despedida. A demanda foi tão alta que fez com que o grupo abrisse novas datas da "Leve com você", ampliando o tempo de estrada da turnê, que foi anunciada em 2024. O último show aconteceu em agosto de 2025.
Provando o atual interesse no gênero, "Sorri, sou rei", um dos maiores sucessos da banda, virou MTG. Conhecido pela técnica de colagem musical de grandes hits, DJ Topo fez uma versão da faixa da banda em janeiro de 2026.
Com 40 anos de carreira, a Tribo de Jah viu sua demanda de shows crescer nessa nova fase. Juliana Beydoun afirma: "A banda sempre teve uma agenda forte de shows, circulando de norte a sul do país, em grandes palcos e festivais, mas percebemos um interesse cada vez maior pelo reggae nos últimos tempos, inclusive em eventos e espaços que antes não costumavam abrir tanto espaço para o gênero". A produtora destaca que, atualmente, a banda está presente em festivais de reggae e em grandes festas populares e tradicionais do calendário brasileiro, como Carnaval e São João. "Isso mostra que o reggae deixou de ser visto como um estilo sazonal ou de nicho e passou a ocupar espaços cada vez mais amplos dentro da cultura e do entretenimento no país".
Ainda este ano, a banda Maneva irá rodar o país com sua turnê comemorativa de 20 anos. O grupo tem o projeto "Tudo vira reggae", que transforma músicas de diversos gêneros como sertanejo, rock, MPB e pop em reggae. A ideia surgiu de uma live que aconteceu durante a pandemia. "A gente não imaginou que a repercussão ia ser tão grande, que a gente ia ter um acolhimento do público tão grande. E não tivemos outra opção senão transformar essa live em um registro", contou Tales de Polli, vocalista do Maneva, ao g1 na época. Seis anos após a criação do álbum, o "Tudo vira reggae" se conecta com o bom momento do gênero, talvez batizando esta nova era.
