Funk e orquestra se unem em evento na Zona Leste
18/05/2026, 03:53:21
Uma noite de celebração e cultura
O Projeto Aquarius trouxe uma fusão inédita de funk e música clássica ao Parque do Carmo, na Zona Leste de São Paulo, com Glória Groove e MC Tha ao lado da Orquestra Experimental de Repertório. O evento celebrou a cultura local e destacou a importância de conectar o erudito às raízes populares, proporcionando uma experiência única aos moradores da periferia paulistana.
Com fãs cantando a todo pulmão e balançando leques com as cores do arco-íris, o Parque do Carmo foi palco, neste domingo (17), da mistura do funk com a música erudita, na sexta edição do Projeto Aquarius em São Paulo. Pela primeira vez, o evento foi realizado na periferia da Zona Leste paulista, e ninguém melhor para estrelar essa festa que duas crias da região: Glória Groove e MC Tha, que mesclaram seus hits do funk e do pop com os arranjos da Orquestra Experimental de Repertório da Fundação Theatro Municipal.
O céu cinza, a garoa intermitente e a temperatura que não ultrapassou os 20ºC foram apenas um detalhe para as centenas de pessoas que ocuparam o amplo gramado do parque — algumas, desde cedo, em busca de um lugar na grade para não perder nenhum detalhe da apresentação.
Um grupo de quatro fãs de Gloria Groove chegou ao local por volta das 7h da manhã, e tamanho esforço foi recompensado com um presente da cantora, que os recebeu antes de subir ao palco. Mas o público era diverso, com crianças, jovens, idosos, casais e famílias completas.
As estrelas do evento
Foi um passeio musical pela Zona Leste. Regida pelo maestro Wagner Polistchuk, a orquestra fez referência aos bairros desse lado da cidade com uma interpretação do “Samba do Arnesto” (que mora no Brás) de Adoniran Barbosa, e de “O Trenzinho do Caipira”, de Heitor Villa-Lobos, lembrando a relação da região com as linhas de trem que ali passam.
MC Tha, nascida e criada na Cidade Tiradentes, entrou no palco pouco antes das 16h, com “Comigo Ninguém Pode” numa versão carregada de violinos que fez todo mundo dançar e bater palmas. Em “Oceano”, a melodia ganhou tons mais suaves para dar o ritmo a uma letra mais introspectiva.
Mas logo o Parque do Carmo virou baile com “Despedida” — cujas estrofes “me lembro bem deste dia/em plena Celso Garcia” não deixam de ser um ode à Zona Leste onde MC Tha cresceu, fazendo referência à avenida que vai do Brás à Penha. Mantendo a cantoria do público lá em cima, a artista seguiu com “Rito de Passá”, que dá nome ao seu primeiro álbum, lançado em 2019.
Recebida com fervor pela plateia, Glória Groove surgiu vestida de gala, de vermelho da cabeça aos pés, cantando “A Queda”, que no palco do Aquarius ganhou trombones e violinos na melodia. O pagode “Nosso Primeiro Beijo” surgiu num ritmo mais lento, fazendo casais apaixonados cantarem abraçados e uma multidão balançar os braços de um lado para o outro com os olhos marejados de emoção. “Glória, eu te amo”, gritaram os fãs da estrela da Vila Formosa em agradecimento.
Ela embalou a festa com “Sobrevivi” e “Leilão”, uma bem-sucedida mistura de versos cantados rapidamente no estilo rap com a dramaticidade conferida pelos violoncelos e violinos bem evidentes. Mantendo o clima lá no alto, foi a vez de “Vermelho”, rearranjada com toda liberdade pelo maestro, segundo Glória explicou ao GLOBO.
— Eu dei liberdade para o maestro reinventar por completo, eu falei “maestro, brinque, faça, aconteça”. Foi o que aconteceu. Foi legal poder reexplorar e reimaginar, reinventar o nosso popular encontrando com o erudito — disse a artista. — É tão feliz para mim sentir que faço parte de uma coisa que está trazendo cultura, música pop e música erudita para a nossa Zona Leste, um lugar que tem as minhas raízes. Às vezes a pessoa nunca viu uma orquestra sinfônica, e agora ela está aqui e vai viver essa experiência por minha causa.
A festa terminou em samba, num dueto de MC Tha e Glória Groove cantando "Tá Escrito" ladeadas pela orquestra. A chuva não quis ficar de fora da canção derradeira, e apareceu mais forte embalando os versos "a chuva só vem quando tem que molhar", mas as gotas de água não assustaram o público animado, que balançava guarda-chuvas como instrumentos de dança.
Uma conexão com as origens
'Quebra de barreiras' MC Tha conta que a apresentação no Aquarius se conecta com o seu próximo álbum, que está em produção, e que terá como enfoque a volta às origens. Ela também aponta que a junção da orquestra com o funk pode ajudar a “expandir as linguagens e quebrar as barreiras” que são colocadas às pessoas das periferias.
— É um álbum que justamente traz esse meu retorno falando da Cidade de Tiradentes, da formação da Mc Tha antes do “Rito de Passá” (álbum lançado em 2019). E ter esse convite de cantar aqui no parque com o projeto Aquarius só coroou que eu já venho trabalhando. — disse. — Enquanto uma pessoa que cresceu na periferia de São Paulo, a gente tem poucos exemplos de algum jovem que foi para uma grande orquestra ou algum artista que se sentiu plenamente confortável para ingressar nesse universo da música clássica.
O Projeto Aquarius, promovido pelo GLOBO, difunde a música clássica para grandes plateias a céu aberto desde 1972, mesclando artistas contemporâneos de diversos estilos com orquestras sinfônicas. Nos últimos anos, foram realizadas apresentações no Vale do Anhangabaú e no Auditório do Ibirapuera.
— Quando eu vi o anúncio, já pensei “vai ser incrível”, porque ela tem uma potência muito vocal forte. E o evento é muito legal porque orquestra é uma coisa cara, fechada, e muita gente nunca viu. Então é uma coisa legal levar esse tipo de cultura para as pessoas — comentou a produtora audiovisual Vitória Rodrigues, 22 anos, fã de Glória Groove e criadora do GG em Libras, projeto que traduz as canções dela e de outras artistas drag para a linguagem de sinais.
O maestro Wagner Polistchuk diz que "é importante ter essa mistura" entre o popular e o clássico e que o concerto tentou "resgatar a história" da região Leste de São Paulo, desde os primeiros povos até as ferrovias.
