Atividade física é essencial para a saúde mental
23/05/2026, 10:37:02
Atividade física: um poderoso aliado na saúde mental
Escrever sobre atividade física e saúde mental em um espaço que tem nomes como Marcio Atalla e Chico Salgado é quase como entrar em campo com dois craques que já vêm jogando essa partida há anos. Ainda assim, talvez valha acrescentar o olhar de quem vê, no consultório, o efeito disso sobre a saúde mental, todos os dias.
Nos últimos 20 anos, um corpo crescente de evidências vem mostrando que a atividade física não é apenas coadjuvante. Ela pode ser tão eficaz quanto medicamentos no tratamento de casos leves a moderados de depressão e ansiedade. Um trabalho publicado este ano, que reuniu e analisou grandes revisões de estudos, encontrou benefícios significativos do exercício físico sobre sintomas de depressão e efeitos moderados sobre a ansiedade, especialmente quando comparado à inatividade. Atividades aeróbias como corrida, natação ou ciclismo são as mais eficazes na redução de sintomas, mostra o estudo.
O dado mais relevante, entretanto, talvez seja este: os ganhos são comparáveis e, em alguns casos, superiores aos de intervenções tradicionais, como psicoterapia e antidepressivos. Isso não significa substituir uma coisa por outra, mas reposicionar o exercício como parte integrante e efetiva do tratamento.
Mas os benefícios não se limitam ao tratamento. Eles começam antes. Estudos recentes mostram que pessoas fisicamente ativas têm menor risco de desenvolver depressão ao longo da vida. E não falo de extremos, como participar de uma prova. Mesmo níveis moderados de atividade parecem oferecer proteção significativa. Há, inclusive, o que chamamos de dose-resposta: até certo ponto, quanto mais consistente for a prática, maiores são os proveitos.
Na clínica, esse impacto positivo aparece de outras formas. A mais direta é a combinação entre atividade física e tratamento medicamentoso. Pacientes que se exercitam tendem a evoluir melhor.
Há, ainda, efeitos indiretos, menos óbvios, mas igualmente importantes. Atividades com alguma estrutura, como uma prova de corrida com uma meta ou um treino com progressão, organizam a rotina (e, muitas vezes, o nosso mundo interno) e, não raro, reduzem o consumo de álcool por uma incompatibilidade prática: dormir melhor, acordar cedo e treinar exigem escolhas. E as boas escolhas, quando acumuladas, repercutem na saúde mental.
Por fim, há um impacto mais visível: a autoestima. Exercitar-se não diz respeito apenas a uma questão estética, mas a uma forma de recuperar vitalidade, sentir-se capaz e construir uma percepção mais positiva de si.
Quando se fala em atividade física, porém, não se fala necessariamente de correr uma maratona ou fazer um Ironman. O ponto-chave é regularidade: algo que entre na agenda, que estimule a nos manter firmes e que envolva progressão. Isso, claro, varia com a idade e o contexto, mas o princípio é o mesmo.
Diante de tudo isso, a maior mudança que talvez possamos promover não seja científica, mas cultural. As especialidades médicas que olham para a saúde mental ainda tratam o exercício como um complemento, quando já há evidências suficientes para ocupar um lugar mais central no cuidado, inclusive na prevenção.
Não surpreende, portanto, que tenha ganhado força a ideia de incluí-lo formalmente na formação médica. Iniciativas como o movimento Exercise is Medicine (em português, "Exercício é Remédio"), criado há quase vinte anos nos Estados Unidos, defendem exatamente isso: que o exercício seja tratado como um pilar da prática clínica, não como um conselho ao final da consulta.
Mexer o corpo não é só um hábito saudável. É uma das formas mais acessíveis de cuidar da mente e talvez uma das poucas que tratam, previnem e devolvem a alguém uma participação concreta no próprio cuidado. E isso não é pouco.
