Ebola e iniquidade exigem ação global urgente

Ebola e iniquidade exigem ação global urgente

Urgência de Ação Global


O recente surto de Orthoebolavirus Bundibugyoense na RDC destaca a necessidade urgente de ações globais inovadoras para enfrentar iniquidades que perpetuam crises de saúde na África. Com mais de 900 casos e 200 mortes, a transmissão é facilitada por conflitos armados e mobilidade populacional. Apesar do baixo risco de pandemia global, a alta mortalidade e falta de vacinas efetivas sublinham a importância de prevenir, em vez de remediar, surtos futuros.

Retorno de Pesadelos Covid-19


Nas últimas semanas vimos a ressurreição do fantasma da pandemia de Covid-19, em especial a lembrança do pânico trazido pelas variantes Beta e Omicron originadas na África e espalhadas pelo mundo. Desde 5 de maio o planeta está em estado de alerta por mais um surto do vírus de gênero Orthoebolavirus na África, especialmente na República Democrática do Congo (RDC). Já existem testes genéticos disponíveis para diagnóstico, mas os acessíveis no epicentro não eram capazes de identificar a espécie que demonstrou ser a causadora (Orthoebolavirus Bundibugyoense).
Isso, junto com toda dificuldade de acesso aos cuidados de saúde, fez com que quando os primeiros casos foram confirmados, o vírus já estivesse circulando há pelo menos dois meses. Pior, quando esta espécie foi identificada, ficou evidente que não haveria por bom tempo nem tratamento específico, nem vacinas que comprovadamente pudessem prevenir a doença. E quando o genoma do Bundibugyo foi rapidamente sequenciado entendemos que o atual surto é causado por uma nova variante transmitida recentemente de um reservatório animal.

Desafios da Epidemia


O surto pode durar entre 3 e 7 meses, e levar a morte 32% dos infectados. Com poucos dias do surto já há, entre confirmados e suspeitos, mais de 900 casos e 200 mortes. Estes números dobram a cada semana. A porcentagem de contatos rastreados está baixa, em torno de 25%, e é mais um desafio devido à insegurança por conflitos armados, alta mobilidade da população entre centros urbanos fugindo da fome, guerrilha e em busca de melhor atendimento médico.
Apesar da perspectiva catastrófica, o risco de pandemia pelo Bundibugyo é pequeno. O período de incubação é curto, não é contagioso até que os sintomas apareçam, e a transmissão requer contato direto com fluidos corporais de pessoas sintomáticas ou superfícies contaminadas. Quem cuida dos pacientes tem alto risco de infecção e morte. Mas quando o óbito ocorre, o perigo não acaba, já que os funerais são eventos de alto potencial de transmissão. A alta taxa de mortalidade contribui tragicamente para que o surto seja regional.

Iniquidade e Desigualdade


Ao final, o que vai persistir é a iniquidade, as diferenças no estado de saúde de diferentes grupos populacionais, com custos sociais e econômicos significativos tanto para os indivíduos quanto para as sociedades. A África enfrenta desafios de saúde únicos. Apresenta uma carga alta de doenças endêmicas, como Aids, tuberculose, malária, hepatite e câncer do colo do útero, bem como de doenças cardiovasculares e diabetes. Além disso sofre constantemente por patógenos propensos a epidemias. Este cenário é agravado pelas mudanças climáticas, disparidades socioeconômicas, instabilidade política e mudanças no meio ambiente aproximando humanos de reservatórios de animais selvagens.
A criação do CDC da África há dez anos foi um enorme avanço para tentar conter os surtos, mas não parece ser suficiente para prevenção. O desafio requer uma ação global inovadora e estrutural. Isto fica evidente quando observamos que há meio século os Orthoebolavirus são responsáveis por surtos na África, sendo que o primeiro aconteceu justamente no Congo, que já está em seu 17º surto de Orthoebolavirus, sendo o segundo o da espécie Bundibugyoense.

Reflexão Necessária


Mas em um mundo traumatizado pela Covid e no qual a pandemia crônica é a do egoísmo, a pergunta mais frequente tem sido "Quais as chances de espalhar para fora da África?", sendo que deveríamos ao menos também perguntar "Como combater a iniquidade evitando o próximo surto na África?". De 2020 a 2023 o mundo vivenciou a maior pandemia do século, mas se 22 milhões de mortes não foram suficientes para aprendermos que prevenir globalmente é melhor que remediar, e que a busca da equidade é a melhor estratégia, o que mais será necessário?