Teste molecular de HPV pode substituir Papanicolau no SUS
29/05/2026, 05:10:04
Estudo conduzido em diferentes regiões do Brasil mostrou que o rastreamento com o novo teste é mais eficaz
Um estudo conduzido em diferentes regiões do Brasil mostrou que o rastreamento com o novo teste molecular para o papilomavírus humano (HPV) identifica quase quatro vezes mais casos de infecção pelo vírus, principal causa do câncer de colo de útero, do que o Papanicolau. A estratégia, recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), vai substituir o exame convencional no Sistema Único de Saúde.
No estudo, conduzido nas regiões Sul, Sudeste e nos arredores de Brasília, foram analisadas 4.173 amostras cervicais coletadas entre mulheres com idades de 20 a 69 anos. Todas as participantes foram submetidas simultaneamente ao Papanicolau e à nova análise molecular para detecção do HPV de alto risco.
A taxa de positividade – percentual de exames que tem resultado positivo – foi em torno de 25% no teste molecular, enquanto a média foi de 5,7% no Papanicolau. Além disso, em 18% dos exames novos, foram identificados casos de HPV de alto risco, que têm maior relação lesões e câncer.
O trabalho foi conduzido pelo especialista em Citopatologia e Oncologia Molecular Marco Zonta, pós-doutor em Infectologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Ele destaca a importância de ter métodos eficazes para identificar a presença do vírus: — No Sul, por exemplo, o tipo do HPV mais prevalente foi o 16, que é o mais comum em todo o mundo, ligado ao câncer de colo uterino. Em Sorocaba, a família 50 foi mais prevalente. O que é importante é que essa prevalência foi em mulheres de 35 a 60 anos, e essa é uma faixa etária perigosa porque não foi contemplada pela vacina para o HPV, já que o programa foi instalado em 2014.
Os resultados, ainda não publicados em revista científica, estão sendo apresentados às secretarias de Saúde do país e foram divulgados pela primeira vez no Brasil no início de maio durante o Cervicolp 2026 – XXXV Encontro de Atualização em PTGI e Colposcopia, em São Paulo. Antes, foram apresentados em congressos europeus.
Apesar da relevância internacional, os dados são especialmente importantes no contexto brasileiro, onde o Ministério da Saúde começou, no ano passado, a substituir o Papanicolau pelo teste molecular. A oferta do exame começou em 12 estados brasileiros, e o planejamento da pasta é que ele seja implementado em todo o Brasil até o final de 2026.
O teste tem diversos benefícios, como maior sensibilidade diagnóstica e a redução da necessidade de exames e intervenções desnecessárias, com intervalos maiores entre as coletas quando o resultado é negativo. Outra vantagem, segundo o Ministério da Saúde, é o rastreamento equitativo e de alta performance, que alcança mulheres em áreas remotas ou com menor oferta de serviços.
O teste molecular analisa uma amostra cervical coletada de forma semelhante ao Papanicolau e detecta 14 genótipos do HPV classificados como de alto risco. O vírus é a principal causa de câncer de colo do útero. Dessa forma, a testagem consegue identificar a presença do vírus no organismo antes da ocorrência de lesões ou de câncer em estágios iniciais, aumentando as chances de cura graças ao tratamento precoce.
— Os resultados do estudo são consistentes para mostrar que a política de rastreamento com o teste vai trazer benefícios não só para a população, como para a economia da rede pública. O Brasil colocou a diretriz do teste em novembro do ano passado e ainda não implementou o programa em larga escala. Esse projeto mostra a importância de um programa que o Brasil já aprovou, mas ainda demora para implementar totalmente — avalia Zonta.
De acordo com a OMS, a meta de eliminação do câncer do colo do útero como problema de saúde pública até 2030 depende da combinação entre vacinação, ampliação do rastreamento estendido e tratamento precoce das lesões precursoras.
Para Zonta, uma estratégia com iniciativas móveis associadas à utilização de testes moleculares, como foi realizado durante o estudo, pode ter papel importante para ampliar o rastreamento em países marcados pela desigualdade de acesso aos serviços de saúde, como o Brasil.
