Maior terremoto registrado no Brasil ocorreu em MT

Maior terremoto registrado no Brasil ocorreu em MT

O terremoto que marcou a história do Brasil

O maior terremoto já registrado no Brasil aconteceu em Mato Grosso, em 1955, em uma região pouco povoada. O tremor ocorreu na madrugada de 31 de janeiro, na Serra do Tombador, área que hoje pertence ao município de Juara (MT).

O terremoto teve magnitude estimada em 6,2 e atingiu intensidade VII na Escala Mercalli Modificada. Segundo o pesquisador do Instituto de Geociências da UnB, Lucas Barros, apesar de a área epicentral ser pouco habitada, o tremor também foi sentido em Cuiabá.

Tremores recentes e reacendimento do interesse

Tremores de baixa intensidade registrados no Tocantins e no litoral do Rio de Janeiro nos últimos dias chamam atenção para a ocorrência de abalos sísmicos no Brasil, país fora das principais zonas de terremotos. O histórico sísmico do território brasileiro, no entanto, inclui registros mais intensos, como o maior terremoto já documentado no país, ocorrido em 1955, em Mato Grosso, com magnitude estimada em 6,2.

O tremor ocorreu na madrugada de 31 de janeiro de 1955, na Serra do Tombador, área que hoje pertence ao município de Juara (MT), em uma região não povoada e longe das áreas mais associadas a grandes abalos sísmicos no mundo, segundo a Rede Sismográfica Brasileira (RSBR). Na época, a cidade ainda não havia sido emancipada e a região era completamente desabitada. Por isso, o episódio quase acabou passando despercebido.

O terremoto atingiu intensidade VII na Escala Mercalli Modificada, nível considerado forte e capaz de provocar danos significativos, principalmente em construções mais frágeis. A Escala Mercalli, que vai de I a XII, classifica a intensidade dos terremotos com base na forma como são sentidos pelas pessoas e nos danos causados às estruturas. Nos níveis mais baixos, os tremores quase não são percebidos; nos mais altos, podem provocar danos severos e destruição.

Sentido em Cuiabá

Segundo o pesquisador do Instituto de Geociências da Universidade de Brasília (UnB), Lucas Barros, que estudou a região, apesar de a área epicentral ser pouco habitada, o tremor também foi sentido em Cuiabá, a cerca de 380 km do epicentro, com intensidade entre IV e V. Nesse nível, o tremor é sentido pelas pessoas, pode balançar objetos, mas geralmente sem causar danos relevantes, de acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS).

Barros explicou, em entrevista ao g1, que, se um terremoto com a mesma magnitude ocorresse hoje, os impactos seriam mais visíveis por causa da expansão urbana na região.

"Não é possível afirmar com certeza que um novo terremoto vá acontecer. No entanto, como já houve registros anteriores, existe a possibilidade de que novos abalos aconteçam sim", disse o pesquisador.

O que provocou o terremoto?

O professor e coordenador científico da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) Caiubi Kuhn explicou que o terremoto mato-grossense não foi provocado pelo encontro de placas tectônicas, como acontece em países como Japão e Chile. Segundo ele, o abalo ocorreu por movimentações internas da própria placa sul-americana – fenômeno conhecido como terremoto intraplaca. Esses eventos são mais raros, mas podem atingir magnitudes elevadas, principalmente quando acontecem perto da superfície.

"O terremoto ocorreu a pouco mais de 10 quilômetros de profundidade. Isso faz dele um terremoto considerado raso", explicou o pesquisador. E, justamente por ser raso, os efeitos na superfície tendem a ser maiores.

Comparação com terremotos no Acre

Em 2019, um terremoto de magnitude 6,8 foi registrado em Tarauacá, no Acre. Quatro anos depois, outro, com 6,6 de magnitude, foi registrado na mesma região. Apesar da magnitude alta, esses não entram na lista de maiores tremores no país. O sismólogo da RSBR, Bruno Collaço, explicou que isso acontece porque especialistas diferenciam os tremores registrados em território brasileiro daqueles que têm origem em processos tectônicos ligados à Cordilheira dos Andes, no Chile.

"Os terremotos registrados na região do Acre frequentemente aparecem entre os maiores já detectados em território brasileiro. No entanto, do ponto de vista da sismologia, essa interpretação exige uma contextualização importante. Embora ocorram sob o Brasil, os sismólogos, geralmente, não os classificam como 'sismos brasileiros' no sentido geológico do termo", explicou.

Esses eventos no Acre estão ligados à influência de processos tectônicos da Cordilheira dos Andes e têm origem fora da estrutura geológica interna do Brasil, diferentemente de tremores associados a falhas locais dentro do território brasileiro, como no caso da Serra do Tombador.

Possibilidade de novos abalos

Mais de 70 anos depois, especialistas afirmam que um novo evento semelhante ainda pode acontecer, embora não seja possível prever quando. Segundo Collaço, os efeitos de um terremoto como o de 1955 dependeriam, principalmente, da profundidade e da distância em relação às cidades. Ele explicou que, se um tremor semelhante acontecesse hoje na mesma região, os impactos mais fortes seriam sentidos em um raio de até 20 ou 30 km do epicentro, ponto exato onde o terremoto começa.

"Nessa área, seriam esperadas intensidades que poderiam chegar a VII na Escala Mercalli Modificada, com danos consideráveis em construções mais vulneráveis, como casas de adobe, madeira e muros velhos", explicou. Em uma área mais ampla, de até 50 km, ainda poderiam ocorrer rachaduras em paredes, queda de objetos e interrupções pontuais de serviços. Regiões próximas ao centro-norte de Mato Grosso estariam entre as mais afetadas, segundo o especialista.

Histórico sísmico da região

O professor Sergio Fachin, da Faculdade de Geociências da UFMT, explicou que o Brasil ainda não possuía uma rede própria de monitoramento sísmico na década de 1950. Por isso, o terremoto foi identificado com ajuda de equipamentos instalados em outros países, principalmente no Chile.

Desde então, nenhum outro sismo foi registrado exatamente na mesma área. Entretanto, mais ao norte, a cerca de 110 km da Serra do Tombador, no município de Porto dos Gaúchos, uma atividade sísmica recorrente vem sendo observada. Os registros incluem: 1959 — magnitude 4,5, 1981 — magnitude 3,8, 1986 — magnitude 3,6, 1987 — magnitude 3,9, 1988 — magnitudes 3,2, 3,7 e 3,9, 1989 — magnitudes 2,5 e 3,6, 1993 — magnitude 3,8, 1996 — magnitude 4,4, 1997 — magnitude 3,3, 1998 — magnitude 5,1 e 2005 — magnitude 4,7.

A recorrência levou pesquisadores a classificarem a área como Zona Sísmica de Porto dos Gaúchos. De acordo com os especialistas, os tremores estão ligados a movimentações geológicas em uma grande falha existente na região.

Memórias do terremoto de 1955

Não há registros detalhados de desabamentos, rachaduras ou outros danos materiais provocados pelo terremoto de 1955. Isso ocorre porque a região não tinha ocupação humana. Além disso, a área onde ocorreu o abalo ainda nem fazia parte de um município de Juara, que só foi criada anos depois. O difícil acesso e a escassez de moradores limitaram os relatos e os levantamentos sobre possíveis impactos causados pelo tremor. Ainda assim, o terremoto de fevereiro de 1959 em Porto dos Gaúchos foi registrado em um relatório da Colonizadora Noroeste Matogrossense, que fundou a cidade. Segundo o relatório, uma "onda sísmica" abalou todas as casas da área. "Na cantina, as vigas rangiam, caíram objetos. O movimento foi precedido de um 'trovão', digo, de um ruído contínuo, semelhante a trovão", diz trecho do documento.

Conforme o relato, a população deu diversos palpites sobre as causas do terremoto. Alguns acreditavam ser o fim do mundo, sendo o tremor o primeiro sinal. Outros achavam que um meteoro tinha caído.

Como medir a força de um terremoto

A força de um terremoto é medida pela magnitude, calculada a partir da energia liberada no interior da Terra. O registro é feito por equipamentos chamados sismógrafos, capazes de detectar vibrações que se propagam pelo planeta, inclusive a longas distâncias. Mesmo quando um tremor ocorre no Brasil, ele pode ser captado por estações em outros países.

A magnitude mede a energia liberada, e esse cálculo é feito com base nos registros dos sismógrafos, capazes de detectar vibrações no solo. Mesmo quando um tremor acontece no Brasil, ele pode ser captado por equipamentos instalados em outros países. Os especialistas explicam que a escala é logarítmica — ou seja, os números não aumentam de forma simples. Na prática, um terremoto de magnitude 6 é 10 vezes mais forte que um de magnitude 5; um terremoto de magnitude 7 libera cerca de 100 vezes mais energia que um de magnitude 5. Eventos acima de magnitude 6,5 já têm alto potencial destrutivo, principalmente quando ocorrem perto da superfície. A cada 1 ponto a mais na escala, o terremoto se torna 10 vezes mais intenso.

Segundo Caiubi, a magnitude é expressa por uma escala logarítmica, o que significa que os valores não crescem de forma linear. Além da magnitude, a profundidade é um fator decisivo para os impactos. Terremotos rasos, como o registrado em Mato Grosso em 1955, tendem a causar mais efeitos na superfície do que tremores mais profundos, mesmo quando estes apresentam magnitudes maiores.

A cidade de Juara e sua formação

A formação do município está ligada ao processo de ocupação e colonização do norte de Mato Grosso, impulsionado por políticas federais de integração da Amazônia nas décadas de 1960 e 1970. O desenvolvimento da cidade ocorreu de forma gradual, desde a chegada dos primeiros colonizadores até a emancipação política do município.

  • Origem: a ocupação da região começou no início da década de 1970, dentro dos projetos de colonização incentivados pelo Governo Federal para expansão da Amazônia. Em 1971, a empresa SIBAL adquiriu terras na região e iniciou a abertura de estradas, divisão de lotes e instalação da Gleba Taquaral, primeiro nome da localidade. As primeiras famílias chegaram em 1973, vindas principalmente do Sul do país.
  • Distrito: o crescimento populacional e econômico levou à criação do distrito de Juara em 4 de julho de 1976, ainda subordinado ao município de Porto dos Gaúchos.
  • Emancipação: a emancipação política ocorreu em 23 de setembro de 1981, por meio da Lei Estadual nº 4.349, desmembrando Juara de Porto dos Gaúchos e transformando-a oficialmente em município.

Conforme os últimos dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Juara possui uma população estimada em 36.089 habitantes e densidade demográfica de 1,54 habitante por quilômetro quadrado.