Candidato da esquerda no Peru é levado a julgamento
06/06/2026, 11:13:02
Decisão judicial impacta eleições no Peru
A justiça do Peru decidiu, na sexta-feira (5), dois dias antes do segundo turno das eleições presidenciais, enviar a julgamento o candidato da esquerda à Presidência do país, Roberto Sánchez, por uma suposta declaração falsa de financiamento de seu partido há cerca de seis anos. Sánchez enfrentará no domingo a direitista Keiko Fujimori, filha do ex-presidente autocrata Alberto Fujimori em um segundo turno que se anuncia acirrado. A realização da eleição, no entanto, não será impactada pela ordem judicial, pois cabe apelação. Além disso, se vencer as eleições, Sánchez, congressista e ex-ministro de 57 anos, teria imunidade, segundo a Constituição peruana.
"Decreta-se o auto de persecução penal, em consequência declara-se haver mérito para o julgamento oral contra Roberto Sánchez Palomino", leu o juiz Adolfo Farfán, após uma audiência virtual de dois dias. O Ministério Público peruano, que pediu pena de cinco anos e quatro meses de prisão, se declarou "de acordo com" a resolução. A defesa de Sánchez informou que vai apelar, para o que tem prazo de uma semana.
Segundo o Ministério Público, há inconsistências nos informes financeiros do partido de Sánchez, o Juntos pelo Peru, nas campanhas para as eleições regionais e municipais das quais participou entre 2018 e 2020.
De acordo com a acusação, Sánchez teria recebido mais de US$ 57 mil (R$ 292 mil, na cotação atual) em aportes de integrantes de seu grupo político para atividades partidárias que não foram declaradas no Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE, na sigla em espanhol).
"Esta magistratura decidiu prosseguir, declarar infundadas as observações das defesas técnicas e declarar a validade formal da seguinte acusação", acrescentou o juiz.
Reação do candidato
Até agora, Sánchez não se pronunciou sobre a decisão judicial. Na quinta-feira, ele assistiu à audiência virtualmente, pouco antes de seu comício de encerramento de campanha em Lima. "Durante anos tentaram instalar uma mentira para me desacreditar politicamente", escreveu Sánchez em abril sobre o processo no X. Ele alega que o caso tinha sido arquivado em 2025 por um tribunal, devido à falta de provas da acusação sobre o suposto crime de fraude.
Nestas eleições, marcadas pela instabilidade política e o auge da criminalidade, o candidato esquerdista se apresenta como a voz dos pobres e das áreas rurais do país.
A questão da instabilidade política
Sánchez também acusa Fujimori de integrar uma "máfia" política à qual atribui a instabilidade no Peru, que desde 2016 teve oito presidentes. Quatro deles foram destituídos pelo Congresso, onde o partido de Fujimori, o Força Popular, tem enorme influência. Outros dois renunciaram antes de serem removidos, um acabou seu breve mandato de oito meses e o atual interino entregará o poder em julho.
Consenso e estabilidade
Na reta final da campanha, Sánchez tem falado reiteradamente sobre consenso e estabilidade, distanciando-se dos apelos por uma mudança radical que assustaram alguns eleitores conservadores. Na sexta-feira, o candidato disse à AFP que deseja ter relações "respeitosas" com o presidente americano, Donald Trump. — A boa vizinhança, as relações respeitosas entre as nações (....) Acredito que é uma prioridade sempre. E o Peru, que tem relações históricas com os Estados Unidos, não pode ser a exceção. Essa vai ser nossa vocação de governo — afirmou.
Durante seu segundo mandato, Trump tem apoiado candidatos conservadores na América Latina, mas até o momento não o fez sobre o Peru. Sobre a instabilidade política, Sánchez defendeu alcançar um consenso político para frear o uso indiscriminado que o Congresso faz de seu poder de destituir um presidente, alegando "incapacidade moral permanente", como destaca vagamente um artigo da Constituição.
— Temos que recuperar o equilíbrio de poderes, a separação dos poderes, regular a vacância por incapacidade moral permanente no cargo do presidente — defendeu Sánchez, ressaltando que esta é uma tarefa que permitirá "parar esse desgoverno que começou no ano de 2016".
