Cerimônia de abertura da Copa do Mundo no México

Cerimônia de abertura da Copa do Mundo no México

Cerimônia de abertura da Copa do Mundo no México


Faltando pouco para o início da Copa do Mundo, a mobilização de professores mantém a capital mexicana em alerta; o clima de Mundial ainda não tomou conta das ruas.
Protestos e obras inacabadas marcam véspera da Copa no México. A poucos dias da abertura da Copa do Mundo no México, a capital está em alerta devido a protestos de professores e obras inacabadas. A cerimônia no Estádio Azteca será acompanhada por manifestações, enquanto a cidade lida com questões de infraestrutura e conflitos judiciais sobre camarotes. Apesar dos desafios, espera-se que o evento impulsione o turismo e a economia local, enquanto torcedores aguardam ansiosos a festa futebolística.
"Boicote à Copa. CNTE". Diversas pichações com essa frase apareceram nesta terça-feira (9) em muros e painéis publicitários ao longo da movimentada Calzada de Tlalpan, a avenida que leva ao lendário Estádio Azteca, onde nesta quinta-feira (11) será aberta a Copa do Mundo mais cara e maior já realizada.
As estações reformadas do metrô, que exibem o slogan oficial "Cidade do México, capital da transformação", as faixas de pedestres pintadas de lilás e os canteiros com centenas de flores são apenas alguns sinais de que a cidade receberá o torneio. Mas, ao conversar com torcedores e moradores de uma das maiores metrópoles do mundo, fica a impressão de que o país não está organizando uma Copa do Mundo. Na prática, será anfitrião da festa de abertura, da estreia da seleção mexicana e de mais algumas partidas.
Em alguns pontos emblemáticos do Zócalo, onde funcionará o Fan Fest da FIFA, e também no Paseo de la Reforma, vendedores ambulantes oferecem a camisa tricolor que deverá colorir as mais de 80 mil cadeiras do Azteca.
Os mexicanos sentem orgulho por receber a Copa do Mundo pela terceira vez e alimentam a esperança de uma campanha melhor da seleção nacional, em um país onde o futebol é extremamente popular, mas que raramente obteve grandes resultados em Mundiais.
Há meses não existem mais ingressos disponíveis para México x África do Sul, mas os bilhetes encontrados no mercado de revenda custam entre 2.300 e 9.000 dólares.
Cidade do México, Guadalajara e Monterrey receberão 13 dos 104 jogos desta Copa compartilhada com os vizinhos do norte. Nos Estados Unidos, até agora, predomina certa apatia em relação ao torneio, e até imagens de deportações e denúncias de maus-tratos a delegações estrangeiras acabaram se misturando à cobertura do evento — algo inédito para uma Copa do Mundo.
Piquetes e protestos
O assunto que mais preocupa os mexicanos neste momento são os bloqueios organizados por um sindicato de professores que veio de diferentes regiões do país e ameaça boicotar a festa de abertura que será acompanhada pelo mundo inteiro, quando a cantora Shakira subir ao palco montado sobre o mesmo gramado que consagrou Diego Maradona e Pelé.
Se hoje já é necessário mais de uma hora de carro para chegar ao estádio a partir da avenida Paseo de la Reforma, no dia do jogo a tarefa promete ser ainda mais complicada. As autoridades manterão um perímetro de segurança de cerca de dois quilômetros ao redor do chamado Colosso de Santa Úrsula para conter manifestações do sindicato CNTE. Grades foram instaladas para impedir que os professores avancem em direção ao estádio.
"Vamos garantir que a celebração da abertura da Copa do Mundo aconteça de forma tranquila e em paz", afirmou a presidente Claudia Sheinbaum, buscando transmitir tranquilidade à população. Além disso, ela decretou a suspensão das aulas na capital e autorizou que servidores públicos trabalhem remotamente para facilitar o acesso ao estádio.
A praça do Zócalo, onde funcionará o Fan Fest para torcedores sem ingresso acompanharem os jogos em telões, também foi palco de protestos nesta semana. Além dos professores, familiares de desaparecidos vítimas do crime organizado e da violência institucional realizaram manifestações. Em um país com mais de 130 mil pessoas desaparecidas nas últimas duas décadas, segundo registros oficiais, levar essa reivindicação para a vitrine internacional da Copa é visto pelos manifestantes como uma oportunidade de dar visibilidade ao tema.
Para as horas que antecedem a cerimônia de abertura, está convocada uma grande marcha na região de Tlalpan, próxima ao Azteca, além de novos atos no Zócalo.
Uma disputa inusitada
Não são apenas professores, camponeses e familiares de desaparecidos que querem expressar seu descontentamento. Uma disputa judicial incomum entre proprietários de camarotes do Azteca e a FIFA também preocupa a organização da abertura.
Manuel Negrete foi autor de um dos gols mais famosos da história do futebol mexicano — uma bicicleta contra a Bulgária na Copa de 1986, que alguns torcedores chamam, de forma exagerada, de "gol do século". Hoje, ele preside a Associação Mexicana de Proprietários de Camarotes e Assentos Premium, que trava uma batalha judicial contra a FIFA sobre o uso desses espaços durante o Mundial.
O argumento dos proprietários é que, ao adquirirem os camarotes há anos, conquistaram direitos permanentes sobre eles. Por isso, pedem na Justiça autorização para utilizar os espaços, revendê-los, usar os estacionamentos e até entrar com alimentos e bebidas. As regras da FIFA, porém, proíbem esse tipo de prática em competições organizadas pela entidade.
Nesta terça-feira, a FIFA conseguiu que um juiz federal suspendesse o acesso obtido anteriormente pelos proprietários por meio de decisões liminares. Ainda assim, a disputa está longe do fim, e os donos dos camarotes ameaçam realizar novos protestos no dia da abertura.
O custo da Copa
Como acontece em muitos países, a política também entrou no debate sobre a Copa do Mundo. O custo de sediar o torneio é tema de discussão há meses, assim como a quantidade de obras concluídas às pressas e outras ainda em fase final de acabamento.
Parlamentares do partido governista Morena, que também administra a Cidade do México, defendem os mais de 1 bilhão de dólares investidos em infraestrutura para a capital.
As intervenções ligadas à Copa incluem mais de 2 mil projetos concluídos ou em andamento. Entre eles estão a reforma do aeroporto internacional, a modernização de uma linha ferroviária metropolitana, a renovação de 20 estações do metrô, a pavimentação de 250 quilômetros de vias e a construção de novos corredores de transporte.
O Parque Elevado da Calzada de Tlalpan ainda está em obras. Mesmo assim, a prefeita da Cidade do México, Clara Brugada, participou da inauguração oficial no último domingo, apesar da existência de serviços pendentes. Algumas estações do metrô também sofreram com as fortes chuvas dos últimos dias, apresentando infiltrações e acúmulo de água em áreas recém-reformadas.
Apesar das críticas, especialistas estimam que a Copa deixará um legado importante em infraestrutura e impulsionará temporariamente os setores de turismo e serviços. O impacto sobre o PIB mexicano, porém, deverá ser limitado, com a economia crescendo pouco mais de 1% neste ano. As projeções apontam que o torneio pode movimentar mais de 3 bilhões de dólares e gerar mais de 100 mil empregos temporários nas três cidades-sede mexicanas.
Apesar dos conflitos, o negócio da FIFA segue firme. Nesta quinta-feira, Shakira subirá ao palco, a bola começará a rolar e milhões de torcedores deixarão seus problemas cotidianos de lado, ao menos por algumas horas.