Questões gastronômicas que dividem amigos nos bares

Questões gastronômicas que dividem amigos nos bares

Discussões Gastronômicas: Preferências que Dividem Amigos nos Bares


Em uma crônica bem-humorada, o autor aborda discussões gastronômicas que acontecem em mesas de bar, como a ordem de servir arroz e feijão, a preferência por pudim com ou sem furinho, e a forma de comer coxinha. A narrativa explora as divergências sobre o pastel de camarão, com ou sem \"creminho\", destacando a experiência em dois estabelecimentos famosos no Rio de Janeiro. A reflexão revela como algumas preferências alimentares podem se tornar questões inegociáveis nas relações sociais. Muito antes da existência do Tribunal das Minúsculas Causas da internet, um júri bem mais afiado, reunido em torno de uma mesa de bar, já sentenciava questões imprescindíveis para o caminhar da Humanidade. Chope com ou sem colarinho? Pudim com ou sem furinho? E a coxinha? O salgado, na maioria das vezes de aparência inofensiva, já foi objeto de discussões acaloradas entre os \"pontistas\" e os \"bundistas\". Farinha pouca, minha farofa primeiro: uma das poucas instituições que funcionam sem arranhões nesta cidade é o PF de botequim. Esse caso emblemático de polarização gastronômica contrapõe quem prefere dar a primeira mordida no topo, na ponta do petisco, aos que começam pela base. Já presenciei um debate que, de tão intenso, resultou no fim de um relacionamento. Exagero? Certamente não. Algumas coisas são inegociáveis. Faço um esforço danado para não julgar o outro por infortúnios como esses, e às vezes falho miseravelmente. Em muitas ocasiões, faço vista grossa quando alguém separa o verdinho do prato. Se for coentro, então, preciso tomar cuidado para não revirar os olhos. Mas confesso que tenho dificuldades mesmo em me relacionar com pessoas que colocam o feijão por baixo do arroz. Acho gravíssimo. Quem faz isso é capaz de qualquer coisa. Um desses quesitos, porém, me encuca: o pastel de camarão. Com ou sem creminho? Para me eximir desta responsabilidade, fiz uma enquete no Instagram. Com creminho ganhou de lavada, com 83% dos pouco mais de sete votos. Gostaria de ter uma opinião formada sobre o assunto. Mas fato é que quando o tema é pastel de camarão sou, literalmente, uma metamorfose ambulante. Conhecido por suas porções exageradas, não seria justamente no pastel que o Cachambeer iria falhar. Ali, o lema \"sem miserinha\" tem impacto direto no pastel que vem socado de camarão. Chega à mesa barrigudinho de tão recheado. Como o Marcelão, melhor garoto-propaganda de seu próprio bar, se gaba em dizer: \"aqui é só camarão, não tem nada de creminho, não\". Quando estou por lá, tenho certeza de que é coisa certa a se fazer. Me comprometo a fazer uma auditoria de quantos camarões cabem em uma meia-lua da massa carneirinho e contar aqui. Só que, quando visito a minha madrinha em Copacabana, todas essas certezas caem por terra. Ela mora pertinho do Caranguejo, um clássico no bairro desde 1979. \"Temos tudo do mar feito na hora\", diz a toalha de papel com um desenho duvidoso do mascote. E tem mesmo. E tudo é bom. Mas é preciso fazer dois alertas aos marinheiros de primeira viagem por lá: as azeitonas da empada e dos risoles têm caroço; e o pastel de camarão, creminho. É preciso ter raça, ter graça e ter couve, sempre. Chamar aquele recheio de creminho diminui e muito o que eles servem. O que vem dentro da massa, do tipo mais lisinha, poderia ser um prato servido com arroz ou uma farofinha, de tão completo no sabor. Tem gosto de fundo de panela, sabe? De quem teve paciência para esperar ficar pronto e não pulou nenhuma etapa do processo do feitiço da cozinha em transformar as coisas. E quando falo em feitiço, não é balela. É magia mesmo, mandinga. Cresci parando no balcão da Xavier da Silveira para meu pai tomar uns chopes e comprar pastéis de camarão para fazer as pazes com a minha mãe. Quanto mais pastel, maior tinha sido a besteira. Teve um dia que passou de meia dúzia. Nunca soube o que aconteceu, mas o pastel resolveu.