Baleias Jubarte Chegam ao Litoral do RJ para Reproduzir
12/06/2026, 05:37:06
As Baleias Jubarte e a Estação do Romance
Sejam jovens ou muito mais maduras, o importante é a sedução. No mar, a estação do romance está a toda, indo além do Dia dos Namorados. Para as baleias-jubartes, esse período se estende até agosto no litoral do estado do Rio de Janeiro. Essas majestosas criaturas, que começaram a aparecer mais cedo, em maio, vêm para encontrar parceiros e ter filhotes, resultado de encontros do ano anterior.
A jubarte é conhecida como a "cantora do mar" e seu encantamento vai muito além dos saltos espetaculares e da exibição de esguichos e enormes nadadeiras. Elas têm canções, dialetos e sotaques que pesquisadores, aos poucos, começam a decifrar. O Brasil já é o lar da maior população de jubartes do mundo. Elas voltaram a aparecer ao longo do litoral do Rio de Janeiro há cerca de dez anos, tornando-se cada vez mais numerosas a cada ano, redescobrindo um litoral que já foi delas. Após quase chegarem à extinção, é uma alegria ver esses animais espetaculares retornando — afirma Enrico Marcovaldi, diretor do Projeto Baleia Jubarte (PBJ), que há quase quatro décadas atua em conservação e pesquisa dos cetáceos.
Na segunda expedição do ano do PBJ no município do Rio, na última terça-feira, foi possível avistar, sem dificuldade, 12 baleias. Eram adolescentes aprendendo a rota brasileira, seu caminho ancestral pelo litoral do estado.
As jubartes passam seis meses se alimentando na Antártica — onde consomem krill, um pequeno crustáceo de águas geladas, base da cadeia alimentar marinha antártica. Nos outros seis meses do ano, elas rumam para o Brasil, para se reproduzir e dar à luz em águas mais quentes e rasas, numa jornada desafiadora de 4 mil quilômetros, apenas para o destino de reprodução.
A meta reprodutiva tem sido bem-sucedida, ao mesmo tempo em que se livram do massacre promovido pelo ser humano. Quando a caça de cetáceos foi oficialmente proibida no Brasil em 1987, havia aproximadamente 2 mil baleias. Agora, conforme Marcovaldi, a população já se aproxima de 35 mil. Embora ainda distante da abundância do passado, isso representa uma esperança para o futuro.
— As baleias estão sendo vistas com mais frequência no Rio porque há mais jubartes no mar. Antes, eram tão poucas que passavam despercebidas — destaca Marcovaldi.
Hoje, ver as jubartes no litoral não é uma tarefa tão difícil. Muitos já conseguiram fotografá-las até da janela de suas casas, em locais como Ipanema. Contudo, no mar, com sorte, é possível ouvir suas canções. A jubarte, geralmente, vem à superfície para respirar a cada 4 a 8 minutos, mas pode permanecer submersa por mais de 16 minutos se desejar.
Os sons que emitem são, às vezes, audíveis fora d'água, se elas se aproximarem da superfície enquanto cantam. No oceano, esses sons podem se propagar por milhares de quilômetros. A jubarte é considerada a "voz do oceano".
Namoros de jubarte precisam de serenatas. Somente os machos cantam. Eles compõem melodias que variam de 12 a 14 minutos e podem repetir por horas para atrair as fêmeas. As melodias não são uniformes; elas têm uma estrutura definida com pequenas unidades repetitivas chamadas "frases", organizadas em temas maiores e sequências específicas, assemelhando-se a poemas, onde o tema é a estrofe.
A baleia fêmea é maior que o macho e bastante exigente, conforme afirmam os pesquisadores. As melodias precisam se inovar a cada ano para conquistar a atenção das fêmeas.
— A cada ano, elas incorporam os sons que escutam durante suas longas jornadas pelo oceano. Sons da natureza, como os ruídos de peixes, do próprio oceano, e até mesmo os produzidos por humanos, como os motores de navios — explica o pesquisador do PBJ, Pedro Froes.
As mães e filhotes comunicam-se de forma sutil, como se sussurrassem, provavelmente para não chamar a atenção de predadores. As jubartes, apesar de seu tamanho, são vulneráveis; mesmo recém-nascidos, que chegam a medir já quatro metros e podem engordar cerca de 100 quilos por dia, estão sujeitos a ataques de orcas, que são menores e atacam em bando. Marcovaldi lembra que as orcas, conhecidas por sua astúcia, também são vistas no litoral do Rio. Um grande macho de orca, apelidado de "Capitão", é bem conhecido pelos pesquisadores.
Além disso, há sons de alimentação e alerta, entre outros que ainda são pouco compreendidos pela ciência. Froes acrescenta que as diferentes populações de jubartes têm seus próprios dialetos e sotaques. O dialeto das baleias que vêm para o Brasil pode ser claramente distinguido do das equatorianas, por exemplo. As jubartes de uma população normalmente mantêm a mesma rota ao longo da vida, gerando assim as populações brasileiras, chilenas e equatorianas.
Cientistas monitoram as vozes das baleias usando microfones especiais na água, além de tecnologias de "etiquetas", que revolucionaram o estudo desses animais. Essas etiquetas, fixadas por ventosas, enviam dados desde localização por satélite até áudios, vídeos e informações sobre a saúde do animal, conforme explica Froes.
O nome jubarte tem origem no francês e se refere à corcunda ou corcova que estes cetáceos apresentam. Contudo, essa não é a característica mais marcante do animal. A espécie apresenta a maior envergadura entre as baleias, graças às enormes nadadeiras peitorais que podem alcançar cinco metros. Isso nos remete ao nome científico em latim, Megaptera novaeangliae, onde Megaptera significa "grandes asas", uma referência a essas longas nadadeiras, que representam um terço do comprimento total do animal.
A jubarte é capaz de realizar acrobacias impressionantes, apesar de seu peso, que pode chegar a até 40 toneladas. O universo das jubartes, nômades dos mares, ainda guarda muitos mistérios. Essas criaturas solitárias se reúnem apenas para se reproduzir. Mesmo mães e filhotes, que permanecem juntos durante sua passagem pelo Rio, acabam se separando após um ano.
Como parte do projeto de conservação, o PBJ registrou a presença de seis filhotes nascidos em águas cariocas desde 2021, um alívio para a preservação da espécie. As baleias têm marcas individuais que facilitam sua identificação por meio da nadadeira caudal.
Qualquer entusiasta que fotografe as jubartes pode enviar suas imagens para o PBJ (fotoid@baleiajubarte.org.br) para que sejam registradas em plataformas de ciência cidadã, como o Happywhale (happywhale.com). Por meio dessas ferramentas é possível acompanhar as idas e vindas de "sua" baleia pelo oceano.
Toda ação é importante para a preservação dessas gigantes, que medem, em média, de 13 a 14 metros, sendo maiores que quase todos os barcos usados para observá-las. Apesar de sua grandeza, elas são vulneráveis a ameaças como emalhe em redes de pesca, colisões com navios, poluição e mudanças climáticas que têm prejudicado a disponibilidade de krill.
A antecipação no retorno das jubartes pode estar relacionada à escassez de alimentos ou ao aumento da quantidade de jovens que estão aprendendo a rota.
Ramon Nascimento, comandante do catamarã Sagarana que leva grupos para observar as jubartes, ressalta a importância da responsabilidade no turismo — os barcos, por exemplo, não devem se aproximar a menos de 100 metros dos cetáceos. E ele assegura que vale a pena.
— Elas são curiosas, algumas se chegam bem perto por vontade própria, para descobrir quem as está observando. Quando isso acontece, é um presente. É impossível não se emocionar — relata Nascimento.
Marcovaldi enfatiza que, ao longo de séculos, jubartes e outras baleias, como a franca, foram mortas em grande número. Seu óleo iluminou cidades do Brasil e de Portugal, e seus ossos eram utilizados para várias finalidades. As praias frequentemente eram tingidas de vermelho pelo sangue dos animais.
— A proibição da caça nos deu uma oportunidade de continuar a partilhar nosso mundo com esses extraordinários e inteligentes animais, que são essenciais para o equilíbrio dos mares. Precisamos aproveitar essa chance — conclui Marcovaldi.
