Sinais de falta de vitamina B12 e seus riscos
17/06/2026, 06:43:03
Importância da Vitamina B12
Esquecimento frequente, dificuldade de concentração, irritabilidade, cansaço persistente e sensação de "mente embaçada" costumam ser atribuídos ao estresse da rotina ou a transtornos emocionais. Mas esses sintomas também podem estar associados à deficiência de vitamina B12, uma condição considerada comum e que pode provocar alterações neurológicas importantes mesmo sem causar anemia. Como são sinais inespecíficos, a investigação deve considerar outras causas possíveis e ser feita com avaliação clínica.
Consenso da Associação Brasileira de Nutrologia
O alerta faz parte de um consenso publicado pela Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), que reúne recomendações para diagnóstico, prevenção e tratamento da deficiência da vitamina. Segundo o documento, o reconhecimento precoce do problema é fundamental para evitar complicações potencialmente irreversíveis, especialmente no sistema nervoso. A entidade recomenda que a possibilidade de deficiência de vitamina B12 seja considerada rotineiramente na prática clínica, principalmente em grupos mais vulneráveis.
O que é a vitamina B12?
Também chamada de cobalamina, a vitamina B12 participa de processos essenciais para o funcionamento do organismo. Entre suas principais funções estão a síntese de DNA, a produção de ácidos graxos, a formação da mielina (estrutura responsável por proteger os neurônios) e a participação em mecanismos ligados ao metabolismo celular, à função cardiovascular, ao sistema imunológico e ao funcionamento cerebral. De acordo com o consenso, a deficiência da vitamina pode provocar manifestações hematológicas e neurológicas que afetam praticamente todo o organismo.
Sintomas que Podem Ser Confundidos
Um dos pontos destacados pelos especialistas é que a deficiência de vitamina B12 pode se manifestar por sintomas também presentes em transtornos psiquiátricos, distúrbios do sono, outras deficiências nutricionais e diferentes condições clínicas. Irritabilidade, alterações de humor, cansaço constante, palpitações, dificuldade de concentração e sensação de confusão mental estão entre os sinais relatados por pacientes, mas não são específicos da deficiência de B12 e não permitem diagnóstico isoladamente.
Um caso que ilustra essa possibilidade é o do fotógrafo Fernando Beiral, de 42 anos. Durante mais de um ano, ele acreditou estar enfrentando ansiedade e sintomas semelhantes aos da depressão. A descoberta ocorreu por acaso, durante exames realizados por outra finalidade, quando foi identificado que seus níveis de vitamina B12 estavam muito baixos. Após a reposição da vitamina, ele relata ter percebido melhora dos sintomas e destaca a importância de buscar avaliação médica adequada. A resposta ao tratamento, porém, varia conforme a gravidade da deficiência, o tempo de evolução e a presença de outras condições associadas.
Grupos com Maior Risco
O consenso da ABRAN identifica diversos grupos mais suscetíveis ao problema. Entre eles estão:
- Vegetarianos e veganos;
- Pessoas com 60 anos ou mais;
- Gestantes;
- Pacientes submetidos à cirurgia bariátrica;
- Usuários de medicamentos que reduzem a acidez gástrica;
- Pessoas que utilizam metformina;
- Pacientes com doença de Crohn;
- Pessoas com retocolite ulcerativa;
- Indivíduos com doença celíaca;
- Pessoas com síndrome do intestino irritável;
- Mulheres com histórico de infertilidade ou abortamento;
- Imunossuprimidos;
- Pessoas com mielopatia;
- Pacientes com esclerose múltipla.
Alimentação e Absorção de Vitamina B12
Embora os alimentos de origem animal sejam as principais fontes de vitamina B12 e reduzam o risco de deficiência por baixa ingestão, o consumo regular desses alimentos nem sempre impede o problema, porque a absorção da vitamina depende de fatores gástricos e intestinais. Segundo o consenso, fígado bovino, carnes, peixes, ovos, leite e derivados estão entre os alimentos mais ricos na vitamina. Já alimentos vegetais in natura não são considerados fontes confiáveis de cobalamina. Em dietas vegetarianas ou veganas, a ingestão adequada costuma depender de alimentos fortificados ou suplementação, conforme orientação profissional.
De acordo com o consenso da Abran, as principais fontes alimentares incluem:
- Fígado bovino
- Coração de frango
- Fraldinha bovina
- Filé-mignon bovino
- Patinho bovino
- Peito de frango sem pele
- Leite integral
- Muçarela
- Queijo Minas
- Ricota
- Iogurte integral
- Gema de ovo
- Ovo inteiro
- Polvo
- Atum
- Sardinha
- Filé de peixe de água doce
Absorção da Vitamina B12
No entanto, a absorção da vitamina depende de um processo complexo que envolve ácido gástrico, proteínas transportadoras e o fator intrínseco produzido no estômago, com absorção posterior no intestino delgado. Por isso, doenças gastrointestinais, cirurgias e alguns medicamentos podem interferir nesse processo. Por isso, segundo a endocrinologista Marcia Helena Costa, doutora pela USP e professora de Endocrinologia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), mesmo pessoas que consomem regularmente alimentos ricos em vitamina B12 podem desenvolver deficiência se houver dificuldade de absorção.
"Mesmo pessoas que comem alimentos ricos em vitamina B12, como carnes, peixes, frangos, fígado, leites e derivados, podem ter deficiência, porque depende da absorção. É preciso ter uma absorção adequada", explica.
Deficiência em Diferentes Faixas Etárias
O documento mostra que a deficiência está presente em diferentes faixas etárias, mas a prevalência varia conforme população estudada, dieta, renda, idade, doenças associadas, uso de medicamentos e critérios laboratoriais adotados. Nos Estados Unidos, ela afeta cerca de 3% das pessoas entre 20 e 39 anos, 4% entre 40 e 59 anos e 6% dos indivíduos acima dos 60 anos. Os níveis considerados limítrofes são encontrados em mais de 20% dos idosos. Na América do Sul, África e Ásia, a prevalência pode ultrapassar 40% em determinados grupos populacionais. No Brasil, o consenso cita que 14,2% das crianças menores de cinco anos apresentam deficiência de vitamina B12, situação mais frequente em famílias de menor renda e nas regiões Norte e Sudeste.
Sintomas da Deficiência
As manifestações podem atingir principalmente os sistemas hematológico e nervoso. Entre as alterações descritas estão:
- Anemia macrocítica;
- Pancitopenia;
- Trombose associada à hiper-homocisteinemia;
- Sintomas neurológicos diversos.
Nas crianças, a deficiência pode provocar regressão psicomotora, hipotonia, atraso da mielinização e até atrofia cerebral. O consenso destaca que a identificação precoce pode permitir reversão do quadro. Nos adultos, podem surgir parestesias, dormência, perda da propriocepção e dificuldades para realizar tarefas delicadas, como escrever ou abotoar roupas. Já nos idosos, a deficiência pode contribuir para depressão, alterações da marcha, quedas, comprometimento cognitivo, psicose e incontinência urinária e fecal.
Investigação da Deficiência de Vitamina B12
A investigação é recomendada especialmente em pessoas que apresentam:
- Anemia macrocítica;
- Sintomas neurológicos;
- Idade avançada;
- Dieta vegana;
- Gestação ou lactação vegana;
- Bebês de mães veganas;
- Infertilidade;
- Doenças gastrointestinais.
Diagnóstico da Deficiência
Segundo o consenso, pacientes pertencentes a grupos de risco devem realizar inicialmente hemograma completo e dosagem sérica de vitamina B12. Os resultados são interpretados da seguinte forma:
- Acima de 300 pg/mL: normal;
- Entre 200 e 300 pg/mL: limítrofe;
- Abaixo de 200 pg/mL: deficiência estabelecida.
Quando os resultados são considerados limítrofes, a recomendação é complementar a investigação com exames como holotranscobalamina, ácido metilmalônico (MMA) e homocisteína. A endocrinologista Marcia Helena Costa ressalta que um exame isolado não deve ser utilizado sozinho para definir o diagnóstico. Segundo ela, a avaliação deve considerar o histórico clínico, os sintomas, os exames laboratoriais e o acompanhamento médico e nutricional.
Tratamento para Deficiência de Vitamina B12
A vitamina B12 pode ser administrada por via intramuscular, subcutânea, oral, sublingual ou intranasal. As formulações disponíveis incluem cianocobalamina, hidroxocobalamina, metilcobalamina e adenosilcobalamina. De acordo com o consenso, todas são convertidas em cobalamina ativa dentro das células. A via oral tem como vantagens o menor custo e a praticidade, mas pode apresentar menor eficácia em situações de má absorção. Já a administração intramuscular continua indicada especialmente para pacientes com anemia perniciosa, gastrectomia, ressecção do íleo ou síndromes de má absorção.
A Suplementação Sublingual
Um dos destaques do documento é o aumento das evidências favoráveis ao uso da suplementação sublingual. Os estudos analisados mostraram que formulações sublinguais de cianocobalamina e metilcobalamina foram tão eficazes quanto a aplicação intramuscular na correção dos níveis séricos da vitamina e das alterações hematológicas em crianças com deficiência. Outros trabalhos também demonstraram eficácia da via sublingual em diferentes populações, incluindo pacientes em uso de metformina e indivíduos com deficiência marginal da vitamina. Segundo a ABRAN, essa forma de administração oferece vantagens como conforto, segurança, praticidade, rápida absorção e independência do trato gastrointestinal.
Recomendações da ABRAN
Entre as principais recomendações estão:
- Considerar sempre a possibilidade de deficiência de vitamina B12 na prática clínica;
- Realizar suplementação profilática em grupos de risco, independentemente de exames laboratoriais;
- Investigar resultados limítrofes com exames complementares;
- Iniciar o tratamento rapidamente quando houver deficiência estabelecida ou indicação de profilaxia;
- Reservar a via oral para pacientes sem problemas de absorção e sem urgência terapêutica;
- Considerar as vias parenteral e sublingual como preferenciais;
- Reconhecer que as vias parenteral e sublingual permanecem eficazes mesmo em pacientes com alterações de absorção intestinal.
O documento conclui que, considerando eficácia, segurança e conforto para o paciente, a suplementação por via sublingual pode ser a opção de escolha na maioria dos casos de prevenção e tratamento da deficiência de vitamina B12.
