Relatório do BC traz preocupações sobre cenário econômico

Relatório do BC traz preocupações sobre cenário econômico

Relatório de Política Monetária do Banco Central

Esperado com ansiedade pelo mercado, o Relatório de Política Monetária (RPM), divulgado na manhã desta quinta-feira pelo Banco Central, não trouxe os esclarecimentos esperados sobre a extensão do horizonte de convergência da inflação para o primeiro trimestre de 2028, sinalizada no comunicado e na ata do Copom. Na avaliação de Carlos Lopes, economista do Banco BV, o relatório "não agrava a reação do mercado, mas também não ajuda". O RPM deixou de citar a projeção de inflação abaixo da meta em 2028, mencionada tanto na ata quanto no comunicado da última reunião.

Cenário atual da economia brasileira

O economista Luis Otávio Leal, sócio da G5 Partners, ressalta que a avaliação da conjuntura econômica piorou consideravelmente em relação ao relatório anterior. Ele chama atenção para o fato que a revisão da projeção de crescimento do PIB para este ano, de 1,6% para 2%, e a percepção de aumento do hiato do produto — a diferença entre o que um país efetivamente produz (PIB real) e sua capacidade máxima sustentável (PIB potencial) — apontam para uma elevação das pressões inflacionárias.

Leal destaca no cenário desenhado pelo Banco Central para a inflação o efeito do El Niño:
— Olhando para as projeções de inflação até o fim de 2028, há realmente uma quebra entre o quarto trimestre de 2027 e o primeiro trimestre de 2028, que aparentemente se deve ao fim dos efeitos do El Niño sobre a inflação acumulada em 12 meses — afirma o economista da G5 Partners.

Expectativa do mercado

Na avaliação de Lopes, os estudos apresentados no relatório foram mais limitados do que o mercado esperava.
— Foi um relatório que trouxe poucas das simulações que o mercado aguardava analisar em maior profundidade. O documento reforça a caracterização de um cenário mais complexo, tanto no ambiente externo quanto na economia doméstica, e apresenta estudos que destacam os riscos inflacionários, tanto nas expectativas de mercado quanto nas análises do próprio Banco Central.

Por outro lado, não aprofunda temas adicionais, como a deterioração fiscal. Há a suposição de uma melhora estrutural do superávit primário e a consideração de uma taxa de juros neutra próxima de 5%, abaixo do que parte do mercado já considera adequado no curto prazo. O relatório deixou de trazer boa parte dos detalhes que os agentes aguardavam para uma avaliação mais aprofundada — afirma.

Divergências nas previsões

Economistas divergem na leitura sobre a trajetória dos juros. Cláudia Moreno, economista do C6 Bank, vê no relatório uma sinalização de espaço para mais dois cortes na taxa de juros.
— Dado que tinha subido a projeção da inflação para 2027, de 3,5% para 3,7%, a gente achou que poderia subir também a estimativa do primeiro trimestre de 2028, mas ela não subiu. O que sugere que há espaço para chegar a 13,75% até o fim do ano, o que implicaria mais dois cortes. O hiato corrente foi revisado para cima, algo já amplamente esperado, mas, mais à frente, o Banco Central continua projetando um hiato negativo.

No essencial, a narrativa não mudou muito — diz Cláudia. Leal, da G5 Partners, e Lopes, do BV, têm análise diferente da economista do C6 Bank sobre a leitura do relatório em relação ao juros. Na avaliação de Lopes, embora o RPM mantenha a possibilidade em aberto, a probabilidade de uma parada no ciclo de cortes da Selic já na próxima reunião seria maior.