Fraude em remédios falsos contra câncer é investigada no RS
29/06/2026, 19:40:04
Operação Placebo: combate à fraudes na saúde
A Polícia Civil gaúcha deflagrou nesta segunda-feira (29) a Operação Placebo. A ação investiga fraudes e falsificação de remédios contra o câncer comprados com recursos públicos. A investigação começou quando uma farmacêutica da Santa Casa de São Gabriel desconfiou de embalagens do medicamento Enhertu. Uma única compra do remédio poderia custar até R$ 800 mil. O grupo tinha a participação de um oncologista e do empresário Lisandro Henriques Hermes, que foi preso e apontado como principal articulador do esquema. Os investigadores identificaram 39 vítimas do esquema de falsificação, sendo que sete delas morreram durante o tratamento.
A Polícia Civil identificou indícios de fraude em orçamentos e também suspeita de falsificação de remédios oferecidos a pacientes com câncer no Rio Grande do Sul. Os medicamentos foram comprados com recursos públicos. A investigação se aprofundou quando uma farmacêutica da Santa Casa de São Gabriel, na Fronteira Oeste do RS, desconfiou de falsificação ao analisar as embalagens do medicamento Enhertu. A compra, que usava dinheiro público bloqueado pela Justiça, apresentava inconsistências e até erros de grafia nas embalagens.
A participação do oncologista Fernando Borges da Silva, de Santa Maria, foi identificada, sendo ele responsável pelos laudos médicos utilizados nas ações judiciais. O delegado Daniel Severo afirmou que cabia a ele a captação dos pacientes, encaminhando-os aos advogados envolvidos no esquema. "Eles têm claramente ali um médico que é o que capta os clientes. Duas pacientes nos confirmaram que é ele quem indica. Aliás, ele tem cartões desses advogados à disposição para entregar para os pacientes que não conseguiram o medicamento nas farmácias do Estado", explicou o delegado.
A operação policial
Nesta segunda-feira (29), a Polícia Civil cumpriu 57 mandados de busca e um de prisão para investigar o grupo suspeito de fraudes em orçamentos, entrega parcial de medicamentos, uso de empresas de fachada e até o fornecimento de remédios com suspeita de falsificação. A apuração é da Delegacia de Polícia de São Gabriel. As medidas cautelares têm como alvo 15 pessoas e 14 empresas investigadas. O empresário Lisandro Henriques Hermes é apontado como o principal articulador do grupo, controlando direta ou indiretamente as empresas que participariam das concorrências judiciais, como a Licifarma e a LH Medicamentos.
Lisandro negou as acusações, afirmando não ter relação com os advogados e o médico investigados. A Polícia Civil apreendeu com ele dezenas de caixas de remédios, suplementos alimentares e cartelas de medicamentos sem identificação. Lisandro alegou que os itens foram descartados por uma fábrica devido a controle de qualidade, mas não soube explicar por que a própria fábrica não fez o descarte. Para o delegado, Lisandro utilizava sócios formais, conhecidos como "laranjas", para ocultar o verdadeiro controle dos negócios.
A investigação aponta ainda a participação de três advogados, sendo eles Éverson Dornelles, Esther Cowan Kotula e Rita Gabriela Schweickardt Werner, que também estão sob mandados de busca e apreensão. Tanto o médico quanto os advogados tiveram o exercício profissional proibido pela Justiça, em medida cautelar solicitada pela Polícia Civil.
A investigação já identificou 39 vítimas do esquema, com sete mortes registradas durante o tratamento.
Como a Anvisa entrou no caso?
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou, em fevereiro deste ano, a apreensão e proibição da comercialização e distribuição de um lote do medicamento oncológico Enhertu (trastuzumabe deruxtecana) após a identificação de unidades com características diferentes das do produto original. A medida, publicada na Resolução-RE nº 641, de 18 de fevereiro de 2026, visava lotes que apresentavam frascos com dimensões superiores ao padrão habitual e hemisférias de tampa descascadas.
A fabricante, Daiichi Sankyo Brasil, confirmou a existência de frascos falsificados, informando que o produto original possui tampa amarela com acabamento plástico, ao invés das supostas unidades que apresentavam tampa metálica pintada de amarelo, um dos indícios de falsificação. Diante das irregularidades, a Anvisa reforçou a orientação para que profissionais de saúde e instituições adquiram medicamentos somente de distribuidores homologados e que qualquer suspeita seja comunicada às autoridades competentes.
